Natura e Civitas

Batalha da Ponte Mílvia

Batalha da Ponte Mílvia: Um dos momentos cruciais da história da humanidade (Fonte: COLOMBI, C. A Grande Aventura do Homem, 1970)

A representação da natureza e da sociedade já se encontrava bastante modificada no período helenista (322 a.C. – séc.IV) em comparação com o anterior. No Helenismo foi preparada a transição da Antiguidade clássica para a Alta Idade Média, com características que remetem tanto a uma fase como a outra. Dois grandes sistemas filosóficos – o platonismo e o aristotélico – disputavam com as chamadas escolas socráticas a melhor maneira de interpretar o mundo e organizar a vida humana [1].
Nesta mesma época, o Império Romano e o cristianismo surgiram como forças políticas, militares e religiosas, buscando a universalização de suas doutrinas. Platão (429-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) haviam antes preparado o ambiente filosófico para esse tipo de universalização. No que diz respeito aos platônicos, a descrição de um mundo das ideias precedente ao mundo material e principal ponto de referência ao mundo material fora a fonte de uma verdade perfeita transcendental que ia além das imperfeições e dos males da natureza [2].
Os aristotélicos, por sua vez, fundaram na Metafísica um novo campo de estudo, onde se deveria localizar o princípio único e inabalável do movimento de todas as coisas [3]. Apenas o Horto, escola fundada por Epicuro de Samos (341-270 a.C.), tentava manter-se fiel ao espírito naturalista dos pioneiros pensadores pré-socráticos. Para Epicuro, que seguia a hipótese atomista lançada por Demócrito (460-370 a.C.) e Leucipo (450-420 a.C), ambos de Abdera – embora alguns autores atribuam a cidadania milésia a Leucipo -, a natureza ensinava que se devia evitar sempre produzir dano aos seres vivos ou sofre algum mal destes, pois tudo era composto das mesmas pequenas e indivisíveis partículas que formam as coisas que logo a morte viria decompor na matéria insensível [4].
Embora adotasse uma ética sensualista – baseada no açulo de prazer e diminuição da dor -, o epicurismo defendia um equilíbrio das sensações que na sociedade deveria refletir em trocas recíprocas entre as pessoas se buscassem prudentemente a sabedoria, a beleza e a justiça. Tal equilíbrio seria alcançado de acordo com a medida e os critérios para o cálculo dos benefícios e dos prejuízos [5]. Os princípios de reciprocidade e cálculo da felicidade anteciparam em dois milênios as propostas dos utilitaristas e contratualistas modernos. Isso só foi possível por causa de uma concepção materialista da natureza e das interações sociais.
Porém, os epicuristas foram uma exceção no helenismo. Apesar do seu apelo popular, as ideias de Epicuro foram distorcidas, caindo em um hedonismo vulgar, durante o Império Romano. As críticas dos acadêmicos platônicos, somadas às dos peripatéticos aristotélicos e às das escolas socráticas menores, tiraram o materialismo de cena. Com exceção dos céticos, que rejeitavam os dogmas acadêmicos e apontavam as falhas de argumentação que pretendia atingir coerência e consistência lógica, as demais correntes filosóficas helenistas pensavam ser possível construir uma teoria absolutamente verdadeira, tomando como ponto de partida princípios idealizados ou metafísicos localizados fora da natureza e do alcance da experiência do senso comum. A metafísica e a lógica estariam acima de qualquer forma de conhecimento empírico ou prática prudencial consolidada na convivência social. Só na perspectiva idealista de uma vida contemplativa ou na concepção bem adequada do pensamento livre de contradição poder-se-ia chegar à verdade necessária para a compreensão correta da natureza e da sociedade bem ordenada.

Continua…