Nature e Société

Revolução Estadunidense de 1776

A Revolução de 1776 iniciou uma era de ideais racionalistas e românticos na política

Apesar da fragmentação do império romano e da própria igreja, o catolicismo permaneceu como a única instituição capaz de reunir a maioria da Europa em torno de uma só tradição, ao longo de toda Idade Média. Contribuiu para isso o sincretismo que marcou o trato do cristianismo com todos os povos estrangeiros que procurava converter a suas crenças, pelo menos desde a vitória de Paulo de Tarso (cc. 67) no primeiro Concílio de Jerusalém (49). Os rituais e cultos pagãos logo eram incorporados em missas e festivais católicos de toda espécie. Ainda que a forma remetesse aos costumes gentios, o conteúdo das novas práticas absorvidas transformava-se rapidamente seu significado em conceitos cristãos. Foi assim com a páscoa – antigo ritual do culto a Átis e Cibele– e até com o natal – herança do mitraísmo muito popular entre os militares romanos.
O sincretismo, embora fosse uma estratégia de conversão muito eficaz na adaptação de novas culturas, empunha o risco de descaracterizar a missão evangelista dos primeiros cristãos. Em alguns casos tornou-se um veneno mortal para a unidade religiosa, principalmente quando passou adotar hábitos germânicos de pagar suas penalidades em dinheiro. A aceitação das multas como forma de pagamento dos pecados levou à criação e venda de indulgências que contaminaram toda instituição eclesiástica com a corrupção. Foi preciso que Martin Lutero (1483-1546) – um monge agostiniano – pregasse suas Noventa e Cinco Teses à porta da catedral de Wittenberg para que o movimento da Reforma fosse detonado e espalhasse por toda Europa, dividindo definitivamente os cristãos e impondo um duro ataque aos abusos de autoridade da estrutura corrupta do papado romano.
O movimento reformista foi importante não só para os assuntos teológicos, mas também para o desenvolvimento científico e filosófico que vinha sendo controlado pela ortodoxia da igreja. Novas traduções de textos antigos retomavam o debate argumentado, livre das influências e ameaças religiosas. A pesquisa sobre a natureza e a sociedade ganhou novas linhas investigativas baseadas no valor da antiguidade dos documentos descobertos.
Não obstante, essa nova onda intelectual renascia, como é típico de períodos de transição históricos, marcada pela superstição esotérica e gnóstica (que acredita em uma verdade divina oculta na natureza). O amadurecimento renascentista pode ser exemplificado pelo caso exemplar da desmistificação da obra atribuída a um incerto Hermes Trismegisto (séc. III). A tradução do seu Corpus Hermeticum, por parte do influente intelectual italiano Marsílio Ficino (1433-1499), cativou o pensamento de vários autores de mentalidade científica durante o Renascimento. O que fora estabelecido por volta dos séculos II e III fora considerado de autoria do imaginário Trismegisto, um sábio egípcio que teria compilado os ensinamentos do antigo Egito no tempo de Moisés (séc.XIII a.C.). No falso documento, havia uma suposta profecia sobre a vinda de Cristo (4 a.C – 30), misturada com anotações astrológicas, alquímicas e fórmulas mágicas ao estilo das encontradas no Livro dos Mortos egípcio.
Esse hermetismo contaminou todo pensamento erudito de seu tempo e sem embargo o fato de ser imaginado como de autoria pagã, por causa da previsão do advento do cristianismo, contou com o aval da própria igreja. De Leonardo da Vinci (1452-1519) até Isaac Newton (1642-1727), a maioria dos cientistas acreditava nas informações expostas no Corpus Hermeticum. Foi só a partir de Isaac Casaubon (1559-1614) – erudito protestante de Genebra (Suíça) – que essa crença se desmascarou. Casaubon provou em 1610 que aquela obra não passava de uma farsa montada sobre textos neoplatônicos dos primeiros três séculos depois de Cristo.
Durante cerca de 150 anos – de 1460 a 1610 – o hermetismo foi a principal corrente da ciência da natureza, no Renascimento. Sua atmosfera mística continuou atraindo pseudocientistas – desavisados ou mal intencionados – que mesmo nos dias atuais pensam que podem obter o controle da natureza através de fórmulas e passes de mágica. Contudo, aqueles intelectuais que tomavam consciência das revelações de Casaubon logo procuraram se afastar do misticismo em suas pesquisas científicas depois do século XVII, quando o Renascimento cedeu lugar aos critérios mais lúcidos do Iluminismo.

Continua…