Dialética e Metafísica vistas por Berti

Metafísica

Texto sobre tema de Metafísica

Texto sobre a dialética e a metafísica de Aristóteles, interpretado pela ótica do comentarista italiano Enrico Berti, é inserido agora em Discursus.

Veja na seção de Metafísica de Filosofia Antiga.

Tópicos em Música e Filosofia

Tópicos em Música e Filosofia

Tópicos em Música e Filosofia. Gravura medieval representando os estudos práticos dos pitagóricos sobre música

Música no Ocidente inaugura a disciplina de Tópicos em Música e Filosofia que aborda as relações históricas existentes entre essas duas áreas do conhecimento no início da cultura ocidental.

Acesso direto ao texto de Música no Ocidente.

Natura e Civitas

Batalha da Ponte Mílvia

Batalha da Ponte Mílvia: Um dos momentos cruciais da história da humanidade (Fonte: COLOMBI, C. A Grande Aventura do Homem, 1970)

A representação da natureza e da sociedade já se encontrava bastante modificada no período helenista (322 a.C. – séc.IV) em comparação com o anterior. No Helenismo foi preparada a transição da Antiguidade clássica para a Alta Idade Média, com características que remetem tanto a uma fase como a outra. Dois grandes sistemas filosóficos – o platonismo e o aristotélico – disputavam com as chamadas escolas socráticas a melhor maneira de interpretar o mundo e organizar a vida humana [1].
Nesta mesma época, o Império Romano e o cristianismo surgiram como forças políticas, militares e religiosas, buscando a universalização de suas doutrinas. Platão (429-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) haviam antes preparado o ambiente filosófico para esse tipo de universalização. No que diz respeito aos platônicos, a descrição de um mundo das ideias precedente ao mundo material e principal ponto de referência ao mundo material fora a fonte de uma verdade perfeita transcendental que ia além das imperfeições e dos males da natureza [2].
Os aristotélicos, por sua vez, fundaram na Metafísica um novo campo de estudo, onde se deveria localizar o princípio único e inabalável do movimento de todas as coisas [3]. Apenas o Horto, escola fundada por Epicuro de Samos (341-270 a.C.), tentava manter-se fiel ao espírito naturalista dos pioneiros pensadores pré-socráticos. Para Epicuro, que seguia a hipótese atomista lançada por Demócrito (460-370 a.C.) e Leucipo (450-420 a.C), ambos de Abdera – embora alguns autores atribuam a cidadania milésia a Leucipo -, a natureza ensinava que se devia evitar sempre produzir dano aos seres vivos ou sofre algum mal destes, pois tudo era composto das mesmas pequenas e indivisíveis partículas que formam as coisas que logo a morte viria decompor na matéria insensível [4].
Embora adotasse uma ética sensualista – baseada no açulo de prazer e diminuição da dor -, o epicurismo defendia um equilíbrio das sensações que na sociedade deveria refletir em trocas recíprocas entre as pessoas se buscassem prudentemente a sabedoria, a beleza e a justiça. Tal equilíbrio seria alcançado de acordo com a medida e os critérios para o cálculo dos benefícios e dos prejuízos [5]. Os princípios de reciprocidade e cálculo da felicidade anteciparam em dois milênios as propostas dos utilitaristas e contratualistas modernos. Isso só foi possível por causa de uma concepção materialista da natureza e das interações sociais.
Porém, os epicuristas foram uma exceção no helenismo. Apesar do seu apelo popular, as ideias de Epicuro foram distorcidas, caindo em um hedonismo vulgar, durante o Império Romano. As críticas dos acadêmicos platônicos, somadas às dos peripatéticos aristotélicos e às das escolas socráticas menores, tiraram o materialismo de cena. Com exceção dos céticos, que rejeitavam os dogmas acadêmicos e apontavam as falhas de argumentação que pretendia atingir coerência e consistência lógica, as demais correntes filosóficas helenistas pensavam ser possível construir uma teoria absolutamente verdadeira, tomando como ponto de partida princípios idealizados ou metafísicos localizados fora da natureza e do alcance da experiência do senso comum. A metafísica e a lógica estariam acima de qualquer forma de conhecimento empírico ou prática prudencial consolidada na convivência social. Só na perspectiva idealista de uma vida contemplativa ou na concepção bem adequada do pensamento livre de contradição poder-se-ia chegar à verdade necessária para a compreensão correta da natureza e da sociedade bem ordenada.

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Physis e Polis

A cidade e a natureza no centro do universo

Os helenos vivam o universo a partir da perspectiva de sua própria cidade-estado

A relação entre natureza e sociedade é um dos temas mais polêmicos na história da filosofia. Nem sempre natureza e sociedades foram vistas como partes opostas de uma dicotomia, como hoje. A concepção que os antigos helenos tinham das cidades (poleis) era de uma extensão contínua da natureza (physis). Havia a tentativa de alcançar uma integração harmoniosa entre os seres humanos e seu meio. Uma integração diferente da que se busca atualmente, a despeito do consumo voraz dos recursos naturais. Enquanto se tenta forçar uma visão orgânica da biosfera, tendo a espécie humana como parte desse organismo, por outro lado, alimenta-se um comportamento doentio e extremado de destruição em nome de um duvidoso desenvolvimento econômico.
Ao longo do tempo, diversos autores e correntes filosóficas diferentes disputaram qual delas tinha a melhor interpretação acerca da natureza e sociedade. Ora concebendo ambas como coisas distintas, ora como uma única totalidade, por vezes, em conflito interno. Tais posturas refletiam a opinião do senso comum expressa nas várias narrativas mitológicas; crenças religiosas nos seus modos de conceber as dificuldades da vida prática e as delícias de um suposto mundo sobrenatural. Algumas religiões pretendem anular os efeitos nocivos da atuação humana, incentivando sua total submissão e integração ao universo (taoísmo e budismo, por exemplo). Outras consideram a natureza uma criação divina posta para servir à espécie humana (judaísmo e cristianismo, por exemplo).
De todo modo, em qualquer tempo, as paisagens e fenômenos naturais foram temidos, respeitados e admirados como algo sublime ou como ameaças e obstáculos que deveriam ser transpostos ou retificados para o bem do ser humano. Os antigos egípcios associavam o vento quente do deserto ao deus Seth – representação das forças obscuras do mal, que devastava a vegetação, espalhando a seca e a morte. Mesmo em florestas tropicais, os índios americanos, que não prestavam nenhum culto religioso, temiam os monstros tenebrosos que habitavam os interiores densos e úmidos da mata [1].
As primeiras civilizações, quando atingiam uma tecnologia transformadora, alteravam os cursos dos rios, drenavam pântanos e cavavam montanhas, a fim de servir seja por um propósito militar, sanitário, ou simplesmente para ostentar a riqueza e o poder de algum soberano lunático. Assim, a história da humanidade está marcada por atitudes dúbias, quando não contraditórias, em seu manejo dos recursos naturais. Enquanto a população mundial esteve abaixo do bilhão de habitantes, o planeta – graças a sua capacidade regeneradora, autopoiética – pôde manter a diversidade de ambiente e espécie sustentável e vigorosa. Entretanto, agora que a população já passa dos 6 bilhões, a natureza já apresenta sinais de esgotamento frente à proliferação de sociedades devastadoras e consumistas. Os recursos são escassos e, para entender o debate em torno desse difícil problema de convivência e mentalidade, vale a pena passar em revista os principais momentos em que a sociedade ocidental tratou da questão sobre a natureza até se tornar na sociedade globalizante que constituiu uma segunda natureza rival da original.

Continua…

Natureza e Sociedade Através do Tempo

Natureza & Sociedade

Módulo de Natureza e Sociedade

A relação entre natureza e sociedade é um dos temas mais polêmicos na história da filosofia. Nem sempre natureza e sociedade foram vistas como partes opostas de uma dicotomia, como hoje. A concepção que os antigos helenos tinham da cidade (polis) era de uma extensão contínua da natureza (physis). Havia a tentativa de alcançar uma integração harmoniosa entre os seres humanos e seu meio. Uma integração diferente da que se busca atualmente, a despeito do consumo voraz dos recursos naturais. Enquanto se tenta forçar uma visão orgânica da biosfera, tendo a espécie humana como parte desse organismo, por outro lado, alimenta-se um comportamento doentio e extremado de destruição em nome de um duvidoso desenvolvimento econômico.
Ao longo do tempo, diversos autores e correntes filosóficas diferentes disputaram qual delas tinha a melhor interpretação acerca da natureza e sociedade. Ora concebendo ambas como coisas distintas, ora como uma única totalidade, por vezes, em conflito interno. Tais posturas refletiam a opinião do senso comum expressa nas várias narrativas mitológicas e crenças religiosas nos seus modos de conceber as dificuldades da vida prática e as delícias de um suposto mundo sobrenatural. Algumas religiões ainda hoje pretendem anular os efeitos nocivos da atuação humana, incentivando sua total submissão e integração ao universo (taoismo e budismo, por exemplo). Outras, consideram a natureza uma criação divina posta para servir à espécie humana (judaísmo e cristianismo, por exemplo). De todo modo, em qualquer tempo, as paisagens e fenômenos naturais foram temidos, respeitados e admirados como algo sublime ou como ameaças e obstáculos que deveriam ser transpostos ou retificados para o bem do ser humano.

Paideia

Na história da educação helênica, a filosofia exerceu um papel didático tardio, porém crucial. Antes de Tales de Mileto (624-545a.C.) e até Sócrates de Atenas (470-399a.C), seus alunos, e os sofistas fundarem suas escolas, a poesia é que mantinha a função de instituição educadora, unificando toda Hélade. Pelo menos assim foram reconhecidos poetas como Homero (séc. VIII a.C.) e Hesíodo (séc. VII a.C.) até surgirem as críticas devastadoras de pensadores como Xenófanes de Colofon (570-475 a. C.) e Heráclito de Éfeso (545-480 a. C.)[1].

Continua…