
Os símbolos pagãos foram adaptados de modo conveniente para uma melhor infiltração na mente do pensamento antigo remanescente.
O final do primeiro período de atividade filosófica criativa e com rigor intelectual foi marcado por uma sucessão de crendices e superstições. Durante o Helenismo, o centro geográfico dos principais polos de divulgação de ideias retornou à Ásia menor que alternava com o norte da África – notadamente Alexandria – como local de origem dos filósofos de maior expressão de então. Em Tyana, na Capadócia, surge entre 40 e 97 a mitológica pessoa de Apolônio, um neo-pitagórico que, como seu antigo mestre, nada deixou por escrito. Sabe-se apenas que fundara em Éfeso uma escola dedicada ao pitagorismo na mesma época em que Paulo de Tarso (cc. 67) instava os anciãos da igreja a perseverarem no arcebispado que em Éfeso seria instalado.
Isso acontece por volta de 56. Porém, o frequentador mais famoso da escola de Apolônio a deixar notícia só aparece no século II. O romano Flávio Filostrato de Lemnos (170-249) que escreveu uma biografia de Apolônio recheada de fatos extraordinários. A obra fora encomendada por Júlia Domina, mãe do imperador Marco Aurélio Antonino Bassiano, o Caracala (188-217). Em A Vida de Apolônio de Tyana, o neo-pitagórico é descrito como um milagreiro, apóstolo de uma religião que pregava a comunhão mística com Deus, sendo o próprio Apolônio considerado um Deus vivo na Terra, que depois de morto teria ascendido aos céus – uma espécie de Cristo pagão.
O encontro do Cristo pagão com o Cristo de Paulo não ficou registrado ou sobreviveu em nenhum documento. Provavelmente sequer tenha de fato ocorrido, considerando-se a imprecisão das datas. O que se sabe do pensamento de Apolônio é devido aos fragmentos retidos pelo patrístico Eusébio de Cesárea (265-340) em seu Preparação Evangélica.
“Assim, pois, creio que, sobretudo, se oferece o culto conveniente à divindade, e que unicamente o homem consegue mantê-la propícia e benévola para si mesmo em todas as circunstâncias, se ao Deus, a que chamamos Primeiro e que é Único e separado de todas as coisas e que os outros sejam reconhecidos inferiores a Ele, antes de tudo não se lhe ofereçam sacrifícios, nem se acenda fogo nem se consagre absolutamente nenhuma das coisas sensíveis em sua honra; pois Ele não tem necessidade de nada, e, além disso, excetuando-se os seres melhores do que nós, não existe nada, sejam plantas produzidas pela terra, sejam animais nutridos por ela ou pelo ar, que não se achem manchados e contaminados por alguma sujeira. Usa para com Ele sempre o discurso melhor, aquele que não se exprime pela boca, e invoca o seu bem, que é o melhor dos seres, por meio do que há de melhor em nós. E este é o intelecto, que não necessita de um órgão” (Fragmento de Apolônio apud EUSÉBIO, Preparação Evangélica, IV, 13)
Apolônio viajou pelo oriente pregando o exemplo de Pitágoras como ideal supremo de vida. Entretanto, seu pitagorismo tendia mais para uma fuga religiosa da razão, do que para a original corrente de investigação filosófica. Defendia serem todos humanos iguais perante o Universo. Além disso, haveria um Deus superior a todos os deuses e inacessível à razão, sem nome ou qualquer necessidade de sacrifícios. Nesse sentido, embora fosse pagão, o neo-pitagorismo pôde facilmente influenciar a nova religião que surgia e em breve tomaria as rédeas do Império Romano, graças ao seu oportuno sincretismo. O cristianismo que prevaleceu, pelas mãos dos neo-pitagóricos passou ao neo-platonismo e depois ao aristotelismo da interpretação “vitoriosa” de Thomas de Aquino (1225-1274). Uma releitura do legado intelectual helênico sob os alicerces de uma nova igreja carente de bons argumentos.
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