Razão Comunicativa

DENIS SOARES, através do correio eletrônico do Forum de DISCURSUS, quer saber ”DE QUAL PROCESSO, SE CONSTITUI A RAZÃO DISCURSIVA?”.

Habermas

Jürgen Habermas, filósofo da segunda geração da Escola de Frankfurt

A chamada “razão discursiva” é um tipo de racionalidade intersubjetiva – entre pessoas racionais – defendida pela teoria do agir comunicativo de Juergen Habermas e por outros autores como Karl O. Apel e Robert Alexy. No entender desses filósofos, haveria um método racional próprio do discurso prático, em particular, e da comunicação, de um modo geral. Em um foro ideal a forma correta de se comunicar exigiria dos falantes e ouvintes determinadas posturas, a fim de que um entendimento pudesse ser alcançado entre todos envolvidos. O que vale dizer que uma perspectiva pragmática formal na discussão se faz necessária. Isto é, que se adote uma posição livre das pressões cotidianas dos interesses imediatos em favor da busca de um acordo sobre a verdade daquilo que está posto em debate.
Uma pragmática formal, portanto, privilegia certos tipos de atos de fala voltados para o consenso em torno da verdade e da maneira correta de se agir. A razão comunicativa defende um uso específico da comunicação que vai além de uma aplicação meramente instrumental da linguagem, como o evidenciado em ordens, ameaças e promessas, onde a comunicação serve apenas como um meio para se atingir determinado fim e não como um valor que se encerra no acordo universal. No plano formal os participantes de um diálogo assumem a disposição de atuarem com sinceridade, simetria, e igualdade de condições, sem que um tenha possibilidade de se impor sobre o outro a não ser pela força exclusiva do melhor argumento. Desse modo, todos a qualquer momento devem estar aptos a prestarem esclarecimentos acerca daquilo que diz. As conclusões tomadas pela troca de afirmações e justificativas assumem, então, uma condição falibilista em relação às alegações problemáticas sobre a realidade e a situação de cada sujeito.
Assim, a razão comunicativa, através do discurso, atuaria como um filtro que separaria as proposições racionalmente aceitáveis para todos, das demais propostas limitadas a interesses particulares. Esse processo de justificação, apesar de idealizante, incorpora um senso de justiça motivante por envolver os participantes de modo imparcial na aceitação racional da verdade. Contudo, a teoria do agir comunicativo está exposta à crítica de irrealismo, diante das distorções evidentes a que todos estão imersos na discussão do dia a dia, onde inexiste um foro ideal para solução não instrumental dos problemas vividos. Não obstante, a ética do discurso daí derivada se mantém como uma reivindicação válida para os pressupostos pragmáticos de uma discussão sobre modos de agir sustentados pela comunicação. Somente por seu concurso as pessoas podem chegar a algum consenso universal sobre a realidade, sem apelar para valores particulares e exclusivistas. Ainda que de uma maneira falível, a racionalidade atribuída à comunicação surge como uma via interessante para obtenção de acordos sustentáveis do ponto de vista de uma sociedade democrática.
A teoria do agir comunicativo e a ética do discurso vêm sendo desenvolvidas em diversos livros desde que Apel lançou Transformações em Filosofia, e Habermas apresentou seu ensaio Teorias da Verdade, ambos de 1973. Para uma abordagem inicial queira ver também:

http://www.discursus.250x.com/contempo/eticad.html

Quando um Presidente Fala

“Os tolos gostam de se empolgar a cada palavra”
(HERÁCLITO apud PLUTARCO. Do que se Deve Ouvir, 7, p. 41a)

Localização dos Lobos Temporais

Nos lobos temporais esquerdo e direito, o segredo do mentiroso bem sucedido

Os afásicos e os aprosódicos (ou agnósios) têm pelo menos uma grande vantagem sobre quem não tem lesões cerebrais: não se pode mentir para eles. Os afásicos porque, embora não possam entender as palavras, conseguem, sem embargo, perceber a autenticidade daquilo que lhes é dito pelo tom de voz, cadência e gestos do falante. Por outro lado, aqueles que não compreendem as falas emotivas ou simuladas – os aprosódicos – dificilmente são enganados pela interpretação das palavras, pois procuram compensar essa brecha prestando total atenção aos aspectos formais da linguagem, à escolha adequada dos conceitos colocados e seu emprego apropriado no contexto linguístico.
Oliver Sacks, famoso neurologista estadunidense, os apresenta como portadores de distúrbios no lobo temporal esquerdo, no caso dos afásicos, ou no lobo temporal direito, os agnósios com aprosodia, em “O Discurso do Presidente”, artigo inserido na coletânea O Homem que Confudiu sua Mulher com um Chapéu (1985). Lá um paciente aprosódico detecta com precisão o comportamento de um político demagogo:

“Ele não é convincente (…) não fala em boa prosa. Emprega as palavras de maneira imprópria. Ou ele tem uma lesão no cérebro ou quer esconder alguma coisa” (Apud SACKS, O. O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, part. I. cap. 9, p. 88)

A verdadeira compreensão do significado das palavras não se reduz à definição ou apenas no seu uso declarativo, na emoção, na expressão enfática, ou sua evocação. A maioria das pessoas se deixa enganar por ilusões ou compromissos inconfessáveis. Quem quer acreditar nas mentiras de corruPTos e DEMagogos certamente será “enganado”. Mas o emprego de discursos fantasiosos se trai pelo timbre da falsidade e não convence as pessoas mais atentas que não compartilham do mesmo “credo” político, nem os pacientes com lesões nos lobos temporais.
Diferente da afasia almejada pelos antigos céticos no silêncio de quem cala, este distúrbio neurológico não leva à abstenção do juízo ou incapacidade de opinar. Pelo contrário, ajuda a levantar muitas hipóteses sobre as disposições de caráter e intenções dos sectários políticos pretensamente considerados sãos.

Culto da Personalidade

Tchapaev, 1934

Filme soviético de 1934 dirigido pelos irmãos Georgi (1899-1946) e Sergei Vasilyev (1900-1959)

Adolf Hitler (1889-1945) e Iossif Vissarionovich Dzhugashvili, vulgo Stalin (1879-1953), tiveram, em vida, filmes realizados para que pudessem se mirar como diante de espelhos mágicos que lhes mentiam dizendo “não haver ninguém mais poderoso no mundo do que eles”. Antes de Olimpíada: Festa do povo (1936), Helene “Leni” Riefenstahl (1902-2003) filmou O Triunfo da Vontade (1935), no intuito de celebrizar o congresso do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nazi), onde o fuehrer estrela o grande aparato político que expressava sua mania de grandeza. Mas é Tchapaev (1934), dos irmãos Sergei (1900-1959) e Georgi Vasilyev (1899-1946), que inaugura o culto da personalidade no cinema. A história do popular herói revolucionário analfabeto, simples e carismático que deu nome à película serviu como uma luva para enaltecer as “virtudes” guerreiras, francas e eficazes do novo ditador que assumia com mão de ferro as diretrizes da Revolução que os soviéticos fizeram no sentido de restaurar os ideais de igualdade e fraternidade deixados de lado, pelos liberais ocidentais.
Essas obras de propaganda política, travestidas de arte cinematográfica, levavam às massas aquilo que elas queriam acreditar. A sedução pó uma história que recriava a realidade de uma maneira generalizante que permitia à imaginação da maioria acompanhar o desenrolar dos fatos. Nada das difíceis contradições, coincidências e irregularidades da vida cotidiana, apenas a orquestração dos acontecimentos de modo à explicar a falsa predestinação de seus idolatrados líderes.

“A principal qualificação do líder de massa é a sua infinita infalibilidade: jamais pode admitir que errou. Além disso, a pressuposição de infalibilidade baseia-se não tanto na inteligência superior quanto na correta interpretação de forças históricas ou naturais (…) que nem a derrota nem a ruína podem invalidar porque, a longo prazo, tendem a prevalecer. Uma vez no poder, os líderes da massa cuidam de (…) fazer com que as suas predições se tornem verdadeiras.” (ARENDT, H. As Origens do Totalitarismo, III, cap. II, §1, pp. 82-3).

Se as coisas não vão como o esperado, os manipuladores publicitários tratam logo de mudar os métodos de estatísticas, para que os números se acomodem às predições do líder. Na sequência, as encomendadas enquetes de popularidade reforçam a noção de apoio das massas conquistado pela propaganda oficial. Enquanto o público não estiver totalmente isolado das fontes de informação crítica, a propaganda partidária procura parecer plausível as pretensões dos políticos populistas. A falsificação deliberada faz parte então desse tipo de formação de culto em torno do chefe da organização. Como dizia Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), “é na comunidade da mentira que os líderes e seus liderados se reúnem graças à propaganda” (ADORNO, T., HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento, p. 238).
Quando regimes democráticos estão fragilizados, por sucessivas crises econômicas, políticas e morais, fica fácil para políticos demagogos conduzirem as massas a se identificarem com sua personalidade corrupta. O controle das fontes publicitárias dos meios de comunicação ajuda a eliminar os obstáculos da opinião contraditória isolando o público das informações necessárias para tomada de decisão isenta. O caminho fica aberto ao predomínio da tendência adesista. Assim, a população pode internalizar sem maiores dificuldades os valores mesquinhos do líder, que passam a ser divulgados constantemente sem oposição. Desde a educação infantil aos concursos públicos, a nova mentalidade é implantada sem restrições efetivas.
Eis o ambiente em que floresce o culto à personalidade, a mistificação e a deificação dos políticos de vertentes totalitárias, garantidos pela adoração incondicional de uma maioria alienada.

Comunicação e Teoria dos Jogos

Comunicação e Teoria dos Jogos

Título de segunda unidade de curso em Discursus. van LEYDEN, L. "Os Jogadores de Xadrez" (1510)


W
illiam Paul, habitante de Chico City – cidade imaginária da comédia televisiva brasileira -, no Livro de Visitas, pede informações sobre pesquisas que envolvam comunicação e teoria dos jogos.
Dois ganhadores do prêmio Nobel de economia já realizaram trabalhos sobre o assunto. Roger B. Myerson (Nobel de 2007), escreveu o artigo “Multistage Games with Communication”, para a revista Econometrica de março de 1986, onde trata do papel do mediador na formação de equilíbrios em jogos sequenciais com comunicação. Robert J. Aumann (Nobel de 2005), ao lado de Sergiu Hart tratou da comunicação sem custo no artigo “Long Cheap Talk” de 2002.
Além deles, Joseph Farrell trabalhou conceitos como significado e credibilidade em jogos com comunicação sem custo. “Meaning and Credibility in Cheap talk Games” é o artigo de 1993 publicado na revista Games and Economic Behavior. Ao lado de Matthew Rabin, Farrel voltou a falar de comunicação sem custo no esclarecedor “Cheap Talk” do Journal of Economic Perspectives, no verão de 1996.
Quem estiver interessado em mais informações, também poderá iniciar a leitura sobre o assunto através de Comunicação e Jogos numa Ética Naturalizada, onde teoria dos jogos, comunicação e ética são relacionados.