
Famoso lider demagogo inaugura obra de seu PAC. Fonte: UPI, 1933
Aristóteles (384-322 a.C.) foi o primeiro a denunciar o caráter perverso dos líderes demagogos (“guias do povo”). Em sua A Política, definiu-os como “aduladores do povo” [Veja ARISTÓTELES, A Política, 1292 a e 1313 b]. Nos regimes democráticos, tais aduladores aparecem com o propósito de conquistar e manter o poder em nome de um grupo ou mesmo com objetivo pessoal, ao invés de defender o interesse geral do país. A atuação demagógica, por conseguinte, é a que mais contribui para deformação da democracia. Uma vez no comando dos governos, os demagogos tratam de corromper a oposição para que possam instituir leis injustas, quando não podem simplesmente governar por decretos – instrumento pelo qual procuram tomar conta de tudo, a fim de conduzir o povo.
“Disso resulta que eles se tornam fortes, porque o povo é senhor de tudo e eles próprios são senhores da opinião da turba, que só a eles obedece” (ARISTÓTELES, Op. cit, 1292 a)
Nesse tipo de democracia não há mais república, pois para tanto é preciso que a autoridade da lei seja soberana e não a dos decretos que jamais alcançam a força geral da lei. Assim, a tirania também nasce da democracia mais degenerada, onde os princípios da igualdade política e da liberdade são violados. Como aponta Giampaolo Zucchini, no verbete “Demagogia” do Dicionário de Política de Norberto Bobbio (1909-2004), governos populares despóticos voltam-se contra a oposição fragilizada, acusada de ser inimiga do povo e da pátria, para distrair as massas de seus reais compromissos. Depois de eliminar toda oposição, seja pela corrupção, seja por intimidação, a posse do poder acaba por consolidar-se.
“Nessas condições, os demagogos arrogam-se o direito de interpretar os interesses das massas, chamando a si todo o poder e a representação das massas, instaurando uma tirania ou ditadura pessoal” (ZUCCHINI, G. “Demagogia”, in BOBBIO, N. “Dicionário de Política”, p. 319).
Na era contemporânea, entretanto, antes de transformar o regime democrático em um governo totalitário, a propaganda demagógica exerce o papel crucial de substituir e mesmo isolar o público de outras fontes de informação que possam contradizer as mentiras anunciadas em favor do governo. Eis um exemplo típico citado por Hannah Arendt (1906-1975):
“O totalitarismo não se contenta em afirmar, apesar de prova em contrário, que o desemprego não existe: elimina de sua propaganda qualquer menção sobre os benefícios para os desempregados. [...] A recusa em reconhecer o desemprego corrobora – embora de modo inesperado – a velha doutrina socialista de que quem não trabalha não come” (ARENDT, H. As Origens do Totalitarismo, part. III, cap. 2, p. 73)
A exploração da ignorância da maioria da população somada à divulgação de meias verdades, manipulação de estatísticas, mudanças arbitrárias de critérios e metodologia, ausência de fiscalização, além da mera falsificação e corrupção dos fatos garantem o sucesso da propaganda política demagógica. Demagogos modernos, que abdicaram hipocritamente de promover qualquer mudança revolucionária ou deixam de fazer uma simples reforma setorial, pretendem apenas sujeitar a massa com o desejo de impor seus interesses pessoais. De acordo com Zucchini, após atingir o apoio de ampla maioria, tais líderes abandonam o processo de democratização e até o movimento subversivo do sistema sócio político. Ao se tornar um “incontestável” chefe despótico o demagogo moderno satisfaz-se com o consenso da autoridades e instituições existentes em torno do seu suposto carisma.
“Assim sendo, os mecanismos repressivos acentuam, no lugar de diminuir, as características autoritárias do governo e da sociedade, impedindo a tomada de consciência libertadora da massa popular” (ZUCCHINI, G. Op. cit., p. 319)
Ainda que o texto constitucional permaneça “imaculado”, em um governo demagogo, a aparente fachada de ordem jurídica é aplicada de forma simbólica, “altamente seletiva”, como lembra Juergen Habermas [Veja HABERMAS, J. “Caminhos da Destranscendentalização”, in Verdade e Justificação, p. 223]. Não por acaso, Habermas cunhou para essas ocasiões o neologismo “brasilização”, quando quis definir a tendência de democracias ocidentais terem a validade de suas normas desmentidas pela realidade social e faltarem condições efetivas de sua implementação, devido à ausência de vontade política. [Veja HABERMAS, J. Op. cit, p. 223]
De volta a Aristóteles, temos que “o princípio fundamental do governo democrático é a liberdade” [Veja ARISTÓTELES, Idem, 1317b]. Se, paralelo a isso, Herbert Marcuse (1898-1979) estiver correto, havendo “uma conexão essencial entre liberdade e verdade”, explica-se o porque da falsa concepção de liberdade existente no Brasil implicar na contumaz propaganda mentirosa paga pelo atual governo demagogo brasileiro. Depois que a liberdade de consciência é corrompida pela política do “rouba, mas faz”, pouco espaço sobra para a expressão aberta da verdade. [Veja MARCUSE, H. Apud HABERMAS, J. “Correção versus Verdade”, in Idem, p. 267].
Referências Bibliográficas
ARENDT, H. As Origens do Totalitarismo; trad. Roberto Raposo. – Rio de Janeiro: Documentário, 1979.
ARISTÓTELES. A Política; tra. Ivan Lins. – Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.
BOBBIO, N. Dicionário de Política; trad. Carmen C. Varriale et al. – Brasília: UnB, 1998.
HABERMAS, J. Verdade e Justificação; trad. Milton C. Mota. – São Paulo: Loyola, 2004.
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