Educação Ambiental na Primeira Infância

Gráfico de crescimento populacional desde 1820

Crescimento populacional desde 1820 já ultrapassa os limites de absorção de gases poluentes pelo planeta (fonte: Scientific American, 4, 41)


A
s preocupações da humanidade com os efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente são relativamente recentes. Datam de pouco mais de 150 anos. Antes disso, existiam apenas algumas manifestações isoladas de um santo – como Francisco de Assis (1182-1226) – que admoestava para a necessidade de cuidados para com os animais e a natureza, em geral. Poucos filósofos do passado dedicaram alguma atenção ao tema. Dentre eles, destaca-se Arthur Schopenhauer (1788-1860), que fundamentou sua teoria moral na compaixão, definida como evitar cometer atos cruéis contra outros seres vivos[1].
Schopenhauer também foi pioneiro na defesa dos direitos dos animais, mas quem primeiro apresentou um estudo sistemático acerca dos efeitos da superpopulação sobre os recursos naturais foi o economista político inglês Thomas R. Malthus (1766-1831), autor de um ensaio de 1798 que inaugurou esse novo campo de pesquisa. Para Malthus, o excessivo crescimento populacional acabaria com os escassos recursos naturais não renováveis[2]. O argumento de Malthus recebeu uma versão contemporânea mais consistente através do artigo “The Tragedy of the Commons” (1968), do biólogo Garrett Hardin (1915-2003).
A tragédia dos comuns descreve a situação na qual se encontram criadores de gado que resolveram explorar a área de pasto comum a suas propriedades que não tem dono. Para economizarem na compra de ração esses pecuaristas decidem estender o manejo de seus rebanhos às terras devolutas. Ao ampliarem suas pastagens, novas áreas são ocupadas por novas cabeças adquiridas. O gado cresce até o ponto de ocuparem todo o espaço físico disponível. Nesse instante, começa a escassear o pasto natural que existia em comum e o custo de alimentação do número crescente de cabeças de gado acaba sendo maior do que antes da invasão ter sido iniciada. A tragédia dos comuns representa, portanto, a situação paradoxal em que ficam aqueles que pensam poder usufruir indefinidamente de um bem público sem arcar com os custos de sua manutenção, quando passam além do limite que cabe a cada um[3].
O problema proposto por Malthus e Hardin só agora – quando os limites de sustentação da vida no planeta são conhecidos – ganha a clareza necessária para o entendimento em favor do controle da natalidade. Também fica cada vez mais nítido o erro em se implantar uma política de crescimento econômico que não seja sustentável ecologicamente. Vários episódios recentes têm se sucedido devido às dificuldades impostas pelo adensamento populacional, uma das possíveis causadas das mudanças bruscas no clima e na ampliação das áreas geológicas que oferecem risco a quem as ocupa irregularmente.
Nas grandes cidades, o aumento da temperatura tem sido causado pela urbanização e desmatamento, além da poluição dos automóveis. Isso tem causado a queda na qualidade de vida nas metrópoles localizadas em regiões tropicais ou próximas a outras fontes naturais de calor. A atmosfera tem um limite de recuperação que foi calculado em até 0,3 toneladas de emissões por habitante ao ano. No entanto, os países maiores poluidores do planeta insistem em defender suas emissões no limite acima de 1 ton/hab sob o falso argumento de que precisam manter ou melhorar a qualidade de vida de seus cidadãos[4].
Problemas como o aquecimento mundial têm provocado o derretimento de antigas geleiras, antes consideradas permanentes, elevando o nível dos oceanos. Por conseguinte, populações costeiras vêm sofrendo com a subida da maré. Ondas cada vez mais altas varrem a superfície desses lugares. Países mais pobres e dominados por governos corruptos têm maiores dificuldades em combater os efeitos prejudiciais crescentes dos anunciados desastres ambientais.
Nesse contexto, a preocupação por estimular o ensino como o cuidado da natureza tem sido uma constante em sociedades esclarecidas. Em várias conferências internacionais, busca-se um entendimento em torno da necessidade de redução das fontes poluidoras responsáveis pelo aumento da temperatura da atmosfera. No Brasil, desde a constituição de 1988, a educação ambiental está prevista de ser aplicada em todos os níveis escolares e informalmente através da conscientização pública por meio de campanhas que promovam a preservação da natureza[5].

Continua…

Desenvolvimento Infantil até os 10 Anos

Monumento a Rousseau

Gravura de monumento dedicado a Rousseu por sua obra "Emílio" (1757)

O romantismo inerente ao texto de Emílio (1757) não tira o mérito, nem o pioneirismo de seu autor Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) que nesta obra inaugura a pedagogia moderna. Antes de Emílio, as crianças eram vistas como pequenos adultos que deveriam ter a instrução que interessasse à instituição formadora. Dessa forma, os estudantes eram preparados para substituir, quando crescessem, os membros de suas classes sociais ou de um setor específico da sociedade em que viviam. Depois desse romance, que tem por conteúdo um importante ensaio pedagógico, chamou-se a atenção para as características naturais da criança que precisavam ser observadas e estimuladas no que tivessem dos melhores valores humanos.
A crítica de Rousseau recaía sobretudo nos refinamentos fúteis, na hipocrisia e pedantismo de sua sociedade corrompida pelo Antigo Regime. Valorizava, por outro lado, o livre pensamento, as conquistas das ciências e as obras de arte duradouras que não se deixavam levar por modismos de ocasião. Desse modo, Rousseau alcançou lugar de destaque entre os principais reformadores da educação infantil[1].
Outros nomes, depois de Rousseau, mereceram o título de transformadores da pedagogia. Entre eles o soviético Lev Semyonovitch Vygotsky (1896-1934), nascido na bielo-rússia, e o suíço Jean Piaget (1896-1980), conterrâneo de Rousseau. Vygotsky elaborou suas teorias pedagógicas em paralelo ao trabalho de Piaget, independente das conclusões deste. Entretanto partilhou muitos pontos em comum com a epistemologia genética lançada pelo pedagogo suíço. No início do século XX, quando o cenário da educação infantil estava dominado por uma interpretação cientificista dos processos psicológicos, tanto no plano dos fenômenos naturais internos à espécie – darwinismo social -, como na influência excessiva do meio externo imposta à criança por parte do behaviorismo[2].
Vygotsky e Piaget divergiram desses radicalismos ao chamarem atenção para o papel fundamental que a interação do indivíduo com a sociedade exercia no seu desenvolvimento cognitivo, apesar de enfatizarem reciprocamente lados opostos de “uma mesma moeda”. Vygotsky considerava como sua principal divergência a questão crucial do discurso egocêntrico da criança em sua fase pré-escolar (dos 3 aos 7 anos). Para o bielo-russo, “o discurso egocêntrico da criança é um estágio na evolução do discurso vocal para o discurso interior”[3] que permanecia com as mesmas estruturas mentais da criança na etapa em que é interiorizado[4].
Na leitura que fazia de Piaget, Vygotsky lhe imputava a crença no desenvolvimento completo do primeiro discurso egocêntrico. Contudo se Piaget defendesse que esse tipo de discurso precederia inteiramente ao socializado, então o discurso interior também seria anterior à socialização, o que entraria em contradição com o pressuposto da teoria genética do próprio Piaget, cuja sequência iria do pensamento autista (interiorizado) para o socializado, através do discurso egocêntrico explícito. Na concepção de Vygotsky, ao contrário, o pensamento socializado e comunicativo da pré-escola seria anterior ao individual internalizado da escola[5].
Daí a famosa tese de Vygotsky defender a formação social da mente. O desenvolvimento da linguagem seguiria, portanto, o mesmo curso das operações mentais que usam signos, cálculos e memorização, em quatro etapas. Na primeira, ocorreria o discurso pré-verbal natural correspondente do comportamento primitivo. Em seguida, a criança passaria a experimentar o mundo e seu próprio corpo, fazendo uso até de instrumentos no exercício prático de sua inteligência infantil. No terceiro estágio, ela já conseguiria distinguir sinais externos, fazendo contas nos dedos e conversando consigo mesma em voz alta. Por fim, as operações mentais, apresentadas explicitamente antes, são agora interiorizadas. Os cálculos são feitos mentalmente, bem como o discurso egocêntrico que passa a ser silencioso e interno. Pensamento e linguagem seriam, então, na visão vygotskiana dois domínios preexistentes que se sobrepõem para formar o pensamento verbal[6].
Uma vez assumida essa ordem como válida, chega-se à conclusão de que o desenvolvimento intelectual da criança depende do seu desenvolvimento linguístico, o que para Vygotsky teria o mesmo significado de contexto social. Nessa perspectiva, o aprendizado deveria atuar na promoção do desenvolvimento mental, estimulando o avanço das fases de amadurecimento da criança. O educador, assim, exerceria o papel de estruturador das funções psicológicas ordenadas pela cultura humana[7].

Continua…