
Texto sobre Natureza e Sociedade do ponto de vista da Filosofia Contemporânea
Antes de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) lançar seu
Emílio (1762), os colégios jesuítas dominavam a excelência no ensino. Sua orientação seguia os princípios marciais da ordem de Santo Inácio adaptados da disciplina dos antigos exércitos romanos. A disputa e a rivalidade eram estimuladas como forma pedagógica voltada para o trabalho. Uma concepção anacrônica da educação em pleno período iluminista que visava inspirar cidadania republicana, disciplina e liberdade de iniciativa sem se estar subordinada aos comandos militares. Mesmo assim, a aplicação do modelo de convento, em regime de internato, nos colégios tradicionais, a classe de alunos uniformizada subdividia-se em grupos de indivíduos selecionados segundo suas características sociais, altura física, cuidados de higiene e, por fim, capacidade cognitiva [
1].
A atenção às condições naturais da criança proposta por Rousseau provocaria uma reviravolta nas práticas pedagógicas posteriores, libertando a criança do jugo marcial ou discriminatório a que era submetida. Ao lado do voluntarismo revolucionário que se seguiu a 1776 e 1789, essas ideias inspiraram o movimento romântico em toda Europa, mas principalmente nas cidades de língua alemã.
Idealismo Romântico
Em Koenigsberg, a doutrina dualista de Immanuel Kant (1724-1804) floresceu defendendo, por um lado, a possibilidade do conhecimento de fenômenos naturais através da experiência sensível, enquanto, por outro, sustentava que sua fundamentação última deveria transcender ao mundo físico, exclusivamente pela razão pura. Isso impunha algumas limitações ao conhecimento absoluto, uma vez que separava o mundo sensível, onde as coisas acontecem, do mundo das ideias, onde se encontrariam suas fundamentações. Enquanto fossem sensíveis e racionais, os seres humanos jamais atingiriam o entendimento puro da razão.
Tal dualismo, desafiava a geração posterior à superá-lo em direção ao conhecimento absoluto. O idealismo romântico que sucedeu ao criticismo kantiano procurou unificar a fonte de todo conhecimento em um só domínio. Johann Gottleib Fichte (1762-1814), Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (1775-1854) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) foram os principais filósofos dessa tendência teórica. Fichte tentou superar o dualismo de Kant, argumentando que o mundo externo se reduziria a uma projeção do sujeito. Esta projeção ocorreria inconscientemente e todo trabalho do indivíduo para tomar conhecimento da verdade dependeria de uma tomada de consciência do sujeito em relação a sua própria projeção. O resultado do processo de conscientização seria a descoberta da atividade de seu mundo interior, criadora de toda experiência de contato com a natureza, como um “eu autodeterminante” [
2].
A racionalidade transcendental que Kant pensava ser atingida apenas no final de um processo evolutivo, Fichte punha como objetivo de uma doutrina da ciência que serviria de base aos idealistas posteriores. O que chamou atenção, primeiro de Schelling e depois de Hegel – foi o processo de autoconscientização do eu a respeito da relação intuitiva que este teria entre sua subjetividade e a objetividade de um mundo de aparências. Esse ponto se tornou uma questão central da fenomenologia em sua busca da essência da verdade que só um eu absoluto, autoconsciente, poderia atingir.
Os primeiros estudos de Schelling apontaram o mesmo ponto de vista da filosofia fichteana. Porém, mais tarde, considerou seu sistema extremamente subjetivista e limitador do conhecimento da natureza. Ao contrário de Fichte, Schelling passou a identificar o absoluto ideal ao próprio mundo real. O absoluto seria o supremo ato de conhecimento que permitiria a completa identificação do que ideal como o real. A natureza representaria a essência da eternidade em sua forma particular. A compreensão da natureza como uma série de corpos finitos em algo infinito seria unificada pelo movimento que leva ao absoluto. Para tanto, far-se-ia necessário desfazer a aparência de formas finitas na intuição de uma identidade absoluta completa e objetiva de todas as coisa [
3].
O movimento de unificação de duas coisas de aparências opostas – prenunciado tanto por Fichte, como por Schelling – transformou-se em um sistema dialético pelas mãos de Hegel e logo foi adaptado por Karl Marx (1818-1883) para descrever a luta histórica pelos modos de produção. Contudo, enquanto Hegel e seus antecessores entendiam tal processo de autoconscientização como meio de consagração mística e religiosa das conquistas da Revolução Francesa, Marx – junto com seu parceiro Friedrich Engels (1823-1895) – vislumbrava a ascensão de uma nova classe econômica – o proletariado – ao poder na sociedade.
As origens de tal suposição concentravam-se em uma idealização injustificável do operário como digno representante de uma cultura originária primitiva, na qual se valorizaria a colaboração e partilha comunal da propriedade. Além disso, havia uma concepção evolutiva teleológica da história que estava inspirada no romantismo alemão de um modo geral [
4]. O encontro dessas duas tendências – romântica e liberal – fomentou nova iniciativa revolucionária no início do século XX.
Século XX
O ideal iluminista, expresso no lema “liberdade, igualdade e fraternidade”, aliado à concepção romântica de uma origem pura da humanidade, gerou as diversas tentativas revolucionárias que moldaram o século XX. À direita, o fascismo, à esquerda, o comunismo, eram as duas pontas totalitárias da sociedade contemporânea. Em nome de uma imaginária trajetória histórica que se consagraria em uma etapa final de convivência utópica entre os seres humanos.
O acúmulo de conhecimento gerado pelas pesquisas científicas estimuladas pelos pensadores modernos permitiu o desenvolvimento de tecnologias de transformação dos recursos naturais jamais experimentados. A produção de bens de consumo em larga escala aumentou os anseios de uma massa crescente de consumidores a ponto de tornar o comércio dos produtos industrializados uma atividade planetária. Por conseguinte, o impacto do trabalho humano sobre a natureza passou a ser uma ameaça às condições de vida da própria espécie.
As críticas filosóficas não tardaram a surgir. No início do século, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) propôs uma nova fundação para a metafísica, nos moldes da filosofia pré-socrática. No entanto, tal iniciativa já se mostrava anacrônica na metade do século. A falta de sustentação ecológica da produção seriada em larga escala e a forma alienada de consumismo incentivada pela propaganda, por sua vez, foram alvos das teorias críticas da sociedade elaboradas por intelectuais participantes da chamada Escola de Frankfurt.
Entre os autores desta corrente crítica figuravam os nomes de Walter Benjamin (1892-1940) – que se concentrou na avaliação do padrão estético e político da indústria cultural nascente -; Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor W. Adorno (1903-1969) avançaram questões em sociais sobre a massificação dos bens culturais industrializados que se espalhavam tanto pelas sociedades ocidentais, quanto pelo socialismo soviético. Para esses pesquisadores a felicidade humana não se reduziria à posse de bens de consumo, muito menos na destruição da natureza causada para sua fabricação. Juergen Habermas, que foi aluno de Adorno, provocou uma guinada pragmática nas concepções frankfurtiana.
Habermas, além das objeções aos desvios do projeto emancipatório do iluminismo, denunciou os equívocos irracionalistas que uma visão cética radical poderia acarretar. Para Habermas, uma postura pós-moderna de abandono da argumentação racional traria tantos prejuízos quanto os dogmas positivistas criticados que sustentavam um otimismo exagerado para o avanço científico. Apoiado em uma filosofia pragmática da linguagem, Habermas elaborou uma ética do discurso, onde a busca do consenso seria a principal função da comunicação entre os seres humanos [
5].
O pragmatismo, atualmente, tornou-se a corrente filosófica predominante no continente norte-americano e mesmo na Grã-Bretanha. Seus fundadores foram Charles S. Peirce (1839-1914) e William James (1842-1910). Os pragmáticos, ao contrário dos filósofos céticos ou dogmáticos, abriam mão de uma fundamentação última para o conhecimento da natureza, em favor da constatação das consequências práticas observadas da concepção adotada de um objeto. Assim, a verdade que se poderia obter de uma teoria seria o efeito de suas implicações efetiva, dispensando uma explicação cabal que a justificasse [
6].
Ambientalismo e Pedagogia
A perspectiva consequencialista do pragmatismo permitiu que fossem observadas com atenção os efeitos danosos de uma filosofia da natureza que levasse à degradação ambiental promovida pela industrialização que se ancorasse em otimismo positivista. Nesse sentido, as objeções acertadas que foram levantadas contra os efeitos desastrosos da indústria de massa ajudaram a formar uma mentalidade ecológica que não existia antes.

Terra vista como um organismo único
O conceito de gaia, formulado por James Lovelock em seu livro
As Eras de Gaia (1979). Gaia é uma hipótese que sugere uma compreensão do planeta Terra como um grande organismo vivo único, no qual as espécies interagem umas com as outras conforme as condições climáticas – por exemplo, quanto maior o calor maior a facilidade de espécies de sangue-frio sobreviverem, quanto mais frio for, por outro lado, maior a probabilidade de seres de sangue quente se adaptarem. Assim, o planeta todo serviria como um palco para um sistema complexo de seres vivos coordenarem suas ações como em um processo de homeostase. O que vale dizer que entre os seres vivos haveria uma relação de troca mútua de várias habilidades em função de um equilíbrio precário sensível a qualquer mudança na composição dos elementos químicos e físico envolvidos, como ocorre internamente em cada organismo existente. Esse sistema complexo seria o responsável pela manutenção da vida na Terra. Pequenas alterações pontuais acarretariam grandes transformações em larga escala, afetando todo sistema global [
7].
A ideia contemporânea de uma natureza como sistema complexo chamou atenção para importância da prevenção da biodiversidade nos diversos tipos de meio ambiente. O biólogo estadunidense Edward O. Wilson definiu o conceito de biodiversidade no livro de 1992 que leva o mesmo nome. A biodiversidade resume-se à diversidade biológica que envolve toda extensão dos ecossistemas às espécies nestes contidas e seus respectivos códigos científicos. Segundo as estimativas dos biólogos, “as espécies estão desaparecendo com uma rapidez 100 a 1000 vezes maior do que antes da chegada do
Homo sapiens” [
8].
A perda de biodiversidade está relacionada à capacidade de um meio ambiente resistir à seca e outras pressões climáticas. É a biodiversidade que garante o funcionamento equilibrado dos ecossistemas na renovação das águas, enriquecimento do solo e limpeza do ar. Cada uma das espécies viventes contribui para manutenção recíproca umas com as outras. Elas ocupam um lugar preciso nas fases sequenciais dos ciclos de vida na Terra. O que levou Wilson a recorrer a uma definição inédita de ética ambiental.
“No decorrer de tudo isso, estamos aprendendo o princípio fundamental de que a ética é tudo. A existência social humana, ao contrário da sociabilidade dos animais, baseia-se na propensão genética a formar contratos de longo prazo que evoluem, pela cultura, em preceitos morais e lei. As regras de formação de contratos não foram concedidas à humanidade pelo céu, nem emergiram aleatoriamente na mecânica do cérebro. Elas evoluíram em dezenas ou centenas de milênios porque conferiram aos seus genes prescritivos a sobrevivência e oportunidade de ser representados nas gerações futuras” [WILSON, E.O. Op. Cit, p. 287].
Ao longo do debate histórico da filosofia, os conceitos de natureza e sociedade desenvolveram-se no sentido de ampliar os circuitos das considerações éticas por parte de seres racionais. Nessa trajetória, descobrimos que merecem consideração não só a família, mas também os amigos, os vizinhos, os conterrâneos, a humanidade e agora toda a diversidade da vida.
As instituições de ensino, articulares ou estatais, cujos diretores têm consciência da sua responsabilidade ambiental, estão livres para propor a seus educadores a consideração dos temas relacionados com os problemas de manejo e cuidado com a natureza. Vários protocolos internacionais têm alertado para necessidade de se preparar o planeta para as rápidas transformações climáticas que ocorrerão se não houver a reversão dos efeitos da poluição. Já se sabe que a reversão pretendida até 2012 não acontecerá. Por conseguinte, urge que as próximas gerações estejam preparadas para lidarem com a instabilidade do clima. Enquanto os recursos governamentais não chegam para prepararem as cidades e áreas rurais sob maior risco, resta aos educadores pelo menos informar e adotar práticas simples, a fim de prevenir seus alunos de como enfrentar melhor os desafios que verão pela frente.
Toda forma de desperdício deve ser repudiada. As escolas precisam se envolver com a melhoria da qualidade de vida das comunidades que a cercam. No âmbito interno das escolas, os alunos infantis devem ser logo postos em contato com outros seres vivos. Ao mesmo tempo, os ciclos dos elementos na natureza – por exemplo, da água, do nitrogênio e do metano – ensinados nas salas de aula explicam os desequilíbrios causados pela quebra de um dos elos de sua cadeia natural.
Os passeios ao ar livre, em parques botânicos ou jardins zoológicos devem ser incluídos entre as atividades regulares das instituições de ensino. Tal contato direto com a natureza, que havia sido tão enfatizado por Rousseau, teve o coro do etólogo Konrad Z. Lorenz (1903-1989) que destacava a importância da criança criar um animal ou cuidar de uma planta, para que ela pudesse sentir a responsabilidade pelo seu bem estar [
9].
O significado das coisas naturais passa a ser entendido mais facilmente pela criança quando esta se insere em uma relação direta com o seu meio. Essa é a noção de interesse como já havia sido enunciada por John Dewey (1859-1952). De acordo com Dewey, o conceito de “interesse” está etimologicamente vinculado às coisas nas quais o sujeito está envolvido – em latim, “
inter esse” significa estar “entre seres” [
10]. Logo, a criança e, por conseguinte, o adulto em formação só terá interesse pelos assuntos ecológicos quando estiver, desde o início, imerso nestes.
Notas
1. Veja FOUCAULT, M. Vigiar e Punir, pp. 133 e ss, III part., cap. 1.
2. Veja FICHTE, J.G. A Doutrina da Ciência, II parte, “Dedução da Representação”, IX, p. 130.
3. Veja SCHELLING, F.W.J von. Exposição da Ideia Universal, p. 53.
4. Veja MARX, K. & ENGELS, F. A Ideologia Alemã, pp. 47 e ss.
5. Veja HABERMAS, J. Consciência Moral e Agir Comunicativo, 3, II, pp. 78 e ss.
6. Veja JAMES, W. “O Que Significa o Pragmatismo”, p.48.
7. Veja LOVELOCK, J. “Que é Gaia?”, in As Eras de Gaia.
8. WILSON, E. O. Consiliência, p. 283.
9. Veja LORENZ, K. A Demolição do Homem, IV parte, p. 189.
10. Veja DEWEY, J. “Interesse e Esforço”, §2, 8, p. 163.
Referências Bibliográficas
DEWEY, J. “Interesse e Esforço”, in Vida e Educação; trad. Anísio S. Teixeira. – São Paulo: Abril Cultural, 1985.
FICHTE, J.G. A Doutrina da Ciência, trad. Rubens R. Torres Filho. – São Paulo: Nova Cultural, 1992.
FOUCAULT, M. Vigiar e Punir, trad. Raquel Ramalhete. – Petrópolis: Vozes, 1995.
HABERMAS, J. Consciência Moral e Agir Comunicativo, trad. Guido A. de Almeida. – Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.
JAMES, W. “O Que Significa o Pragmatismo”, in Pragmatismo e Outros Ensaios, trad. Jorge C. da Silva. – Rio de Janeiro: Lidador, 1967.
LORENZ, K. A Demolição do Homem; trad. Horst Wertig. – São Paulo: Brasiliense, 1986.
LOVELOCK, J. Las Edades de Gaia; trad. Ricardo Guerrero. – Barcelona, ed. eletrônica.
MARX, K. & ENGELS, F. A Ideologia Alemã, trad. José C. Bruni e Marco A. Nogueira. – São Paulo: HUCITEC, 1993.
SCHELLING, F.W.J von. “Exposição da Ideia Universal”, in Obras Escolhidas, trad. Rubens R. T. Filho. – São Paulo: Nova Cultural, 1991.
WILSON, E.O. Consiliência; trad. Ivo Korytowsky. – Rio de Janeiro: Campus, 1999.
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