Caminhos da Pesquisa

Francis Bacon (1561-1626), criador do principal método indutivo

Francis Bacon (1561-1626), criador do principal método indutivo, em quadro da Galeria Nacional de Retratos de Londres.

Muitos caminhos levam a um mesmo lugar. Alguns, porém, são curtos e rápidos, outros longos, mas prazerosos; acidentados e difíceis; planos e fáceis. Para longas distâncias, avião ou navio são os meios de transporte mais usados. Avião para cargas leves e perecíveis; navio para pesadas e duráveis. Do mesmo modo, vários métodos podem ser adotados em pesquisa para se chegar a um resultado almejado.
Afinal, era assim que os antigos helenos definiam methodos: um caminho ou procedimento. A escolha do melhor método depende, portanto, de fatores característicos do objeto investigado, da disponibilidade de tempo, recursos e da capacidade do pesquisador. A metodologia é a disciplina que estuda os métodos e sua aplicação nas diversas áreas de conhecimento como as ciências, em geral, história, matemática e filosofia.
Ao longo da história da pesquisa científica, grande quantidade de maneiras de abordar um problema foi lançada sem que houvesse, no entanto, um método único responsável por atingir a solução verdadeira em todas especialidades. Via de regra, um método considerado infalível por uma geração de pesquisadores era derrubado pela geração seguinte. Por exemplo, a antiga convicção dogmática que atribuía ao mestre perito o dom de encontrar o método correto absoluto, capaz de condenar todas as alternativas divergentes como heréticas, perdeu força para uma concepção falibilista que defende o aprimoramento constante de acordo com um melhor entendimento da matéria. Tal compreensão só foi possível em função do acúmulo de experiências precárias que seriam refinadas posteriormente.

O Método de Cada Um

Por razões históricas e de postura intelectual, os filósofos foram os primeiros a propor uma metodologia à pesquisa, tanto da natureza em geral, como da sociedade humana, em particular. No início, filosofia e ciências seguiam lado a lado os métodos propostos por teóricos preocupados em compreender as leis que regem o universo. E durante mais de dois milênios a prática científica tinha de passar pelo crivo dos métodos filosóficos, até que no final do século XIX, a especialização crescente das áreas de conhecimento levou à formação de disciplinas cujos membros estabeleciam seus métodos especializados, sem a intervenção direta de pensadores apenas teóricos.
Em diversas áreas, os pesquisadores que seguiam a tradição foram obrigados a refazerem os métodos antigos, quando estes não satisfaziam mais os novos domínios explorados. Novos procedimentos surgiram ao mesmo tempo em que outros campos de investigação eram abertos. A impossibilidade cada vez maior de definir um único processo para tantos objetivos diferentes facilitou a convivência de métodos antigos – muitas vezes acusados de ultrapassados – com novas técnicas de abordagem de um problema – consideradas “revolucionárias” por seus praticantes.

Métodos Científicos

De um modo geral, as ciências tendem adotar o método hipotético-dedutivo, onde, a partir do lançamento de uma hipótese, procura-se deduzir as consequências passíveis de serem observadas na experiência. Trata-se, portanto, de um processo que admite a possibilidade de falsificação, o que quer dizer que deve ser possível conceber um experimento que falsifique as proposições da explicação apresentada. Uma experiência que comprove os resultados de uma hipótese pode ser refutada por outra que a contradiga.
Para os matemáticos, por sua vez, os testes não dependem da experiência – seja de laboratório ou de campo. A correção de um teorema requer tão somente uma atenção ao seu método dedutivo puro. Em outras palavras, a validade matemática exige que haja consequência lógica, consistência e não contradição daquilo que é proposto com o que se deduz. Assim, a dedução verdadeira decorre necessariamente da verdade de todas as proposições que fazem parte deste procedimento e sua ligação com a conclusão. No método dedutivo, em resumo, parte-se de axiomas – conhecimento prévio tido como verdadeiro e indubitável – dos quais se extraem outras proposições igualmente verazes que conduzem, por força argumentativa, a conclusões incontestáveis. Foi o método inaugurado por Aristóteles de Estagira (384-322 a.C.) na antiguidade clássica e consagrado pela lógica e geometria durante seu desenvolvimento.
Antes de Aristóteles, Sócrates de Atenas (470-399 a.C) acreditava que o único método para obtenção da verdade era um trabalho semelhante ao praticado por sua mãe parteira, a maiêutica. O método maiêutico, ou “parto das ideias”, consistia em prosseguir em perguntas e respostas até alcançar a forma ideal originária que daria a essência de um conceito qualquer. A maiêutica pressupõe a existência prévia de um conjunto mental de definições que precisa ser resgatado pelo investigador para “vir à luz”, se manifestar. Quem pratica a maiêutica admite que haja ideias inatas anteriores à investigação que vão ser descobertas no final da pesquisa.
Além da maiêutica, e da dedução, a indução é outro método científico de grande repercussão. Este foi sistematizado pelo filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) na sua obra Novum Organum (1620) e por isso também ficou conhecido como método baconiano. O método indutivo ou baconiano pretende que as leis das ciências sejam formadas a partir da observação cuidadosa dos fenômenos naturais e da enumeração exaustiva de suas ocorrências. Ao mesmo tempo devem ser assinaladas as ocasiões em que variações e contraexemplos ocorrem. Depois de feita a correlação correta, os resultados são testados através de novos experimentos. Sendo positivos, uma lei geral é induzida diante dos fatos constatados.
Como todo método científico, a indução está sujeita a revisões. Contudo, os críticos da indução estão sempre prontos a levantarem contra este procedimento a acusação de falácia naturalista. Isto é, do simples fato das coisas atuais repetirem uma trajetória percorrida antes não se poderia afirmar que o mesmo evento segue uma lei determinante para todas outras circunstâncias futuras idênticas. Em suma, o ser assim não implica em dever ser assim. Da constatação de que “todo político brasileiro é corrupto”, não se conclui “a obrigação de ser corrupto”, por exemplo. Um problema típico de quem aplica a indução a questões morais incompatíveis.
Na geração seguinte a Bacon, surgiu um método racionalista criado pelo filósofo francês René Descartes (1596-1650). O método cartesiano ou da dúvida metódica defendia que, antes de se instituir qualquer verdade, a razão deve buscar um fundamento seguro sobre o qual construir um conhecimento sólido. Para tanto, seria necessário suspender todo juízo enganoso e duvidar das aparências dos objetos sensíveis. À medida que as exigências vão se tornando maiores, são eliminados todos os dados dos sentidos ou construções imaginárias que possam levar a erro. O objetivo é achar uma certeza inquestionável que sirva de ponto de partida para construção de um conhecimento racional gradativo da realidade.
A crítica feita ao método cartesiano alega que não é possível construir um conhecimento sistemático a partir de uma base tão estreita. Para entender o mundo seria preciso acrescentar princípios arbitrários ao sistema cartesiano, como a existência de um ente todo poderoso garantidor da verdade[1]. Não obstante, a contribuição de Descartes para a história da ciência moderna foi decisiva, sobretudo, para o desenvolvimento da álgebra, nas ciências exatas, e da sociologia.

Dialéticas

Com base nas perguntas e respostas da maiêutica socrática, seu famoso aluno Platão de Atenas (429-347 a.C.) – que depois foi professor de Aristóteles – propôs o primeiro método dialético que se tem notícia. Através do diálogo racional, Platão procederia a sua investigação examinando os prós e os contras de uma questão, até chegar a um ponto que esgotasse o assunto. Por vezes, a dialética platônica esbarra em aporias (becos sem saída), devido à limitação do conhecimento dos debatedores.
Outra forma tardia, mas bastante difundida de entender esses movimentos do raciocínio. foi defendida por Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) na modernidade. Hegel adaptou a dialética a um progresso histórico das ideias. Em poucas palavras, a dialética hegeliana visava ultrapassar as contradições do presente (antítese) ante as considerações estabelecidas no passado (tese) em uma futura condição histórica esclarecedora (síntese). O ciclo constante de tese-antítese-síntese levaria a um aperfeiçoamento da consciência do indivíduo até atingir uma conscientização absoluta no fim da história.
Na política, o método da dialética hegeliana gerou o materialismo dialético de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engel (1820-1895) que punha o socialismo e a igualdade de classe como resultados de um processo histórico de luta pelos meios de produção econômicos em uma sociedade. Depois da queda do muro de Berlim (1989), o filósofo estadunidense Yoshihiro Francis Fukuyama sugeriu em seu livro O Fim da História e o Último Homem (1992) que a história havia chegado a um final diferente daquele imaginado pelos marxistas. O que gerou muita polêmica ideológica e pouco esclarecimento relevante para se entender os desdobramentos do mundo contemporâneo.

Métodos Relativistas

O desenvolvimento da matemática proporcionou a criação de novas ferramentas intelectuais que tornaram viável o tratamento estatístico dos eventos periódicos da natureza. Desde Blaise Pascal (1623-1662) – um dos pioneiros na criação de fórmulas para compreensão do lançamento de dados ao acaso -, o método estatístico foi sendo cada vez mais aplicado a pesquisas e ganhou estatura científica do século XX em diante, quando já não se achava mais possível encontrar um procedimento livre de incertezas que abarcasse toda realidade. O cálculo de estatísticas deixou de ser um mero divertimento para matemáticos e tornou-se um dos principais instrumentos na economia, sociologia, biologia etc.
Em casos de difícil solução, abdicou-se do desejo de alcançar uma precisão absoluta de aceitação universal para se satisfazer com refinadas aproximações. O uso de estatísticas obriga todo processo investigativo a estar em constante aprimoramento, embora isto esteja sempre sujeito a refutações de cunho relativista. Pois, suas pesquisas se apoiam em uma distribuição difusa dos dados a qual seus resultados estão vinculados.
Por conta dessa necessidade de interpretação correta dos dados, a segunda metade do século XX viu surgir um método interpretativo baseado na linguística, chamado de hermenêutico. A hermenêutica foi um método desenvolvido primeiro para compreensão de textos, sendo, mais tarde, empregado na pesquisa social e histórica. Porém, a adoção da interpretação de fatos sociais ou históricos, como se fossem textos, é vulnerável a concepções subjetivas por causa do ponto de vista subjetivo adotado por seu intérprete pesquisador ou do “personagem” investigado. Tudo dependeria da perspectiva adotada pelos envolvidos com a “narrativa” e sua formação de crítico erudito ou mero apreciador dos acontecimentos narrados. Além disso, o fato de todos estarmos situados historicamente indica que estamos submetidos a valores de uma época difíceis de serem isolados no trato de outro modelo histórico.
Um método heurístico, por sua vez, ao invés de interpretar um problema, visa criar um procedimento que possa solucioná-lo. Se não houver nenhum algoritmo ou receita pronta para resolver uma questão, a heurística passa a oferecer respostas próprias para cada caso. Os processos de “tentativa e erro” ou de “força bruta” são exemplos de como tal método tenta encontrar uma regra que gere uma conclusão. A engenharia reversa é outra variante desse modo de solucionar problemas.

Contra o Método

Os principais métodos de pesquisa aqui elencados – hipotético-dedutivo, indução, dialética, estatística, hermenêutica e heurística – foram formados ao longo do tempo por filósofos, cientistas e intelectuais preocupados em achar um processo que conduzisse suas investigações até um conhecimento consolidado. Cada objeto de pesquisa e sua respectiva disciplina demandam métodos específicos a fim de chegarem a um bom termo. Não existe um método único capaz de abordar todo tipo de problema científico, apesar de durante séculos várias correntes de pensamento tentarem impor seus próprios critérios como os mais perfeitos e robustos de todos os tempos.
De fato, o respeito atribuído a um método esteve muitas vezes ligado ao seu sucesso inicial e o no crescimento no número de adeptos que o alçava à moda científica de seu tempo. Não por acaso, autores como o filósofo austríaco Paul Feyerabend (1924-1994) denunciavam que a formação dos paradigmas das ciências estava relacionada com a eleição feita por uma maioria de praticantes de uma disciplina em um determinado momento e não por um critério de verdade que convencesse a todos integralmente[2].
As tentativas de se impor um sistema unificador da pesquisa já vinham sendo criticadas desde o final do período clássico, na antiguidade, por filósofos da escola cética fundada por Pirro de Élis (365-275 a.C.). Para os céticos, nenhum método concebido seria capaz de atender todos os critérios de verdade. Em algum ponto, estes entrariam em contradição, ou cometeriam uma circularidade, regressão ao infinito, relativismo ou ainda se revelariam como uma simples determinação arbitrária e injustificável de suas hipóteses. Sem ter como atender todos esses requisitos, ao mesmo tempo, restaria aos pesquisadores suspender seus juízos e se aterem apenas à constatação das aparências dos fenômenos naturais[3].
Apesar de nenhum método poder garantir o atendimento completo dos rígidos critérios de verdade dos céticos, ao menos se pode adotar uma perspectiva pragmática e uma postura falibilista atenta na investigação científica que deve estar sempre aberta a revisões. O pragmatismo proporcionou ao século XX avançar na pesquisa em diversos setores. Se já não era mais possível defender o mesmo procedimento para todas as disciplinas, pelo menos um ordenamento cada vez mais refinado dos processos investigativos permitiu o rápido crescimento das informações que temos hoje. Algo mais edificante do que a simples negação pós-moderna da possibilidade de todo conhecimento científico. O sucesso de um projeto de pesquisa depende da escolha adequada do método específico em cada área, aliado a uma boa gestão de cada etapa dos processos até chegar aos resultados finais.

Notas

1 Ver DESCARTES, R. Meditações, VI, pp.129 e ss.
2. Ver FEYERABEND, P. Contra o Método, cap. XVIII, p. 457 e ss.
3. Ver MONDOLFO, R. O Pensamento Antigo, vol II, cap. IV, pp.126 a 140.

Referências Bibliográficas

BACON, F. Novum Organum, trad. José A. R. De Andrade. – São Paulo: Abril Cultural, 1973.

DESCARTES, R. Meditações, trad. j. Guinsburg e Bento Prado Jr. – São Paulo: Abril Cultural, 1983.

FEYERABEND, P. Contra o Método, trad. Octanny S. Da Mota e Leonidas Hegenberg. – Rio de Janeiro: F. Alves, 1977.

FUKUYAMA, Y. F. O Fim da História e o Último Homem, trad. Aulyde S. Rodrigues. – Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

MONDOLFO, R. O Pensamento Antigo, trad. Lycurgo G. Da Motta. – São Paulo: Mestre Jou, 1973.

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