As correntes filosóficas foram responsáveis pela criação dos principais métodos de investigação. Não raro, em uma mesma escola poder-se-ia encontrar indagações e caminhos completamente opostos para abordagem de um problema comum, como entre os membros da academia platônica que oscilaram do dogmatismo da primeira geração ao ceticismo tardio dos seus últimos seguidores. Por tais meios, a filosofia abriu espaço para o desenvolvimento de uma série de disciplinas que, ao aprofundarem suas pesquisas estabeleceram os domínios das diversas ciências contemporâneas, da física à sociologia.
Por conta disso, tornou-se uma das características marcantes da própria filosofia o estudo de métodos adequados para a busca de conhecimento, a sua principal finalidade. Assim, muitos filósofos dedicaram grande esforço intelectual na formação de um campo de investigação conhecido como metodologia. Nomes de primeira grandeza, desde Parmênides de Eleia (515-449 a.C.) até Ludwig Wittgenstein (1889-1951), dispendiam muitos argumentos a favor ou contra determinada maneira de se tratar uma linha de pesquisa. Muitas vezes, isso acabou por gerar um forte ceticismo quanto à capacidade intelectual humana de atingir a verdade das coisas, seja como fenômeno natural, ou como essência última. Fato que terminava sempre na forte tendência que hoje domina certos setores da filosofia continental europeia, marcada por um niilismo contraditório nos casos extremos.
Sem embargo, as dificuldades do pensamento atual em definir um método absoluto não impediram aos filósofos de continuarem seu trabalho, refinando-o mais e mais. Autores como os estadunidenses John R. Searle e Thomas Nagel refletem a tendência de levarem novamente a investigação filosófica para o âmbito da realidade, a despeito de todos os paradoxos e problemas que a postura realista acabou enfrentando sempre que foi empregada.
Logo no prefácio de sua
A Última Palavra (1997), Nagel adianta que a conclusão geral das disputas filosóficas depende do enfrentamento irrestrito da questão “de como as coisas são”, objetivamente [
1]. Searle, por sua vez, em um texto crucial de 1999 –
The Future of Philosophy (
O Futuro da Filosofia) – adverte que “o maior obstáculo isolado ao progresso de um tipo de sistemática teórica tem sido a obsessão com a epistemologia” e seus problemas céticos [
2]. O abandono do viés epistemológico ajudaria no incremento de uma consideração teórica construtiva nos campos da linguística, da filosofia da mente, da ética, política e ciência. Domínios que para Searle são ainda promissores para a filosofia atual.
Ambas as posturas filiam-se ao ponto de vista pragmático da filosofia estadunidense, lançada no tempo de William James (1842-1910), mas que se consolidou no século XX com John Dewey (1859-1952) e que teria em Richard Rorty (1931-2007) um defensor radical de uma guinada pragmática do pensamento na segunda metade do século passado. Contra a concepção da filosofia como um “espelho da natureza”, a visão pragmática de um monismo realista tem sido a tônica daqueles que ainda tentam construir uma teoria filosófica razoável do mundo, a despeito do “vale tudo” pós-moderno.
Regras do Método Sociológico

Émile Durkheim (1858-1917). Foto Lauros-Giraudon da Biblioteca Nacional de Paris
Todas as ciências surgiram da filosofia. Com a sociologia não foi diferente. Da segunda metade do século XIX até o início do XX, uma série de pensadores procurou estabelecer critérios que distinguissem as ciências sociais do questionamento mais abrangente da filosofia. O francês Émile Durkheim (1858-1917) foi um dos que mais avançaram nessa direção. Seu As Regras do Método Sociológico (1895) é considerado a pedra fundamental da formação da sociologia.
Lá, estão os principais argumentos em favor de uma ciência social objetiva e independente de qualquer outra ideologia partidária. Para Durkheim,
“a sociologia não tem de tomar partido entre grandes hipóteses que dividem os metafísicos [...] Tudo quanto pretende que lhe concedam é que o princípio de causalidade se aplica aos fenômenos sociais, [...] como um postulado empírico produto de uma indução legítima” (DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico, “conclusão”, pp. 147-8).
A questão metodológica da causalidade nas ciências sociais é uma das mais difíceis de solucionar. Durkheim pretendia adotar os métodos baconianos junto à dúvida metódica cartesiana para resolver este problema. Porém, diante do fato da pluralidade de causas concorrendo para o desenlace dos fenômenos sociais, fica praticamente impossível identificar apenas uma causa que lhe seja determinante. Não obstante, Durkheim sugeria um método comparativo, a fim de fazer emergir os motivos específicos de cada fato social distinto.
Para o fundador da sociologia,
fatos sociais eram coisas externas ao indivíduo passíveis de um tratamento objetivo, livre de especulações subjetivas. Nesse sentido, os sociólogos deveriam se afastar das
pré-noções duvidosas do senso comum e agrupar os fatos “segundo as suas características exteriores comuns”. O que significa que estas devem ser as mais objetivas possíveis e por isso a necessidade de se separar das concepções individuais. Uma vez identificados os componentes que distinguem um fato de outro, a explicação sistemática de suas ideias objetivas consistiria por si só a demonstração de sua prova. Pelo método comparativo, a descrição de um fato social só seria viável a partir de outro fato social, sendo essa a razão do requisito por um procedimento próprio para a sociologia. Tal prática de investigação ficou também conhecida como
holismo metodológico por se ater apenas às instituições sociais como elemento irredutível da sociologia, diferente das outras ciências estabelecidas que tendem à redução as suas peças mais básicas – que no caso da sociologia seria a ação dos indivíduos [
3].
Individualismo Metodológico
A interpretação de culturas tem sido a metodologia em outras ciências sociais como a
antropologia adotada por autores como Clifford Geertz [
4]. No entanto, uma crítica às pretensões de objetividade que reivindicam a exterioridade dos fatos sociais levou à postulação da perspectiva do
individualismo metodológico, como meio mais adequado para incorporação das causas psicológicas e biológicas que foram deixadas de fora desses fenômenos culturais pelo holismo.
Ao contrário da visão anti-reducionista de Durkheim, o individualismo metodológico é uma corrente forte que defende a premissa de que os fatos socais dizem respeito apenas a indivíduos e suas características, crenças e desejos. Ou seja, que a vida social só pode ser entendida através da compreensão das ações humana individuais como as unidades elementares das sentenças sociais. Pesquisadores atuais, como o sociólogo norueguês Jon Elster, procuram mostrar que essa é a única maneira de se explicar as transformações das instituições sociais: uma interação entre agentes individuais racionais. A antiga visão externalista da sociologia possuiria, então, um lapso explicativo irrecuperável ao deixar de lado as preferências, crenças, objetivos e demais estados mentais que influenciam as ações de cada um [
5].
Desse modo, as causas dos fenômenos sociais estariam basicamente permeadas pelas coerções físicas, econômicas, legais e psicológicas que afetam os indivíduos, além das oportunidades de atuação que são disponíveis e exequíveis. Tudo reagiria de acordo com os mecanismos interativos das escolhas racionais e das normas sociais existentes. Diante das diversidades de opções de ação, o agente racional escolheria sempre pela estratégia de atuação que lhe garantisse o resultado mais vantajoso. O que nem sempre – é importante ressaltar – corresponde ao melhor resultado coletivo nas diversas interações em que os agentes estão envolvidos.
O individualismo metodológico passou a ganhar corpo teórico da segunda metade do século XX – embora os primeiros trabalhos tenham surgido depois de 1870. No século passado, o desenvolvimento de teorias econômicas avançadas apresentaram instrumentos de cálculos mais efetivos para abordagem da interação entre agentes racionais, por disputa de melhores resultados para sua sobrevivência, em um ambiente de recursos limitados (soma zero). É o caso da teoria dos jogos, que depois do livro de John von Neumann (1903-1957) e Oscar Morgenstern (1902-1977),
Theory of Games and Economic Behavior (
Teoria dos Jogos e do Comportamento Econômico, 1953), abriu caminho para uma série de experimentos e simulações que ajudaram a esclarecer o comportamento de jogadores pressionados por sua natureza psicológica e biológica [
6].
O ponto de vista da microeconomia permite avaliar desde o desempenho trivial do cotidiano dos indivíduos e seus efeitos em larga escala com efeitos relacionados a revoluções e estratégicas militares ou mesmo à mudança climática no planeta. Não por acaso, o prêmio Nobel de economia foi ampliado para atender também sociólogos, psicólogos cognitivos e demais cientistas sociais que tenham contribuído para o esclarecimento das razões por trás das ações humanas, desde 2002.
Notas
1. Ver NAGEL, T. A Última Palavra, “prefácio”, p. 10.
2. SEARLE, J. The Future of Philosophy, “conclusão”, p. 28.
3. Ver DURKHEIM, É. As Regras do Método Sociológico, cap. 1 e conclusão.
4. Ver GEERTZ, C. Interpretação de Culturas e Negara.
5. Ver ELSTER, J. Peças e Engrenagens das Ciências Sociais, II, p. 29.
6. Ver NEUMANN, J. v. & MORGENSTERN, O. Theory of Games and Economic Behavior, cap. I.
Referências Bibliográficas
DURKHEIM, É. As Regras do Método Sociológico, trad. Pietro Nassetti. – São Paulo: Martin Claret, 2001.
ELSTER, J. Peças e Engrenagens das Ciências Sociais; trad. Plínio A.S. Dentzien. – Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
GEERTZ, C. Interpretação de Culturas. – Rio de Janeiro: LTC, 1989.
__________. Negara; trad. Miguel V. de Almeida. –Lisboa: Difel, 1991.
NAGEL, T. A Última Palavra, trad. Carlos F. Moisés. – São Paulo: UNESP, 2001.
NEUMANN, J. v. & MORGENSTERN, O. Theory of Games and Economic Behavior. – Princeton: PUP, 1953.
SEARLE, J. “The Future of Philosophy”. Disponível na internet via http://socrates.berkeley.edu/~jsearle/articles.html. Arquivo consultado em 2011.
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