As Três Primeiras Meditações de Descartes e a Sexta

Talvez a posição filosófica mais radicalmente oposta à tentativa do senso comum em construir um conhecimento, seja aquela tomada pelo francês René Descartes (1596-1650). Além de ter sido pioneiro da geometria analítica, o autor do Discurso sobre o Método foi a expressão máxima do racionalismo de sua época. Descartes partiu da dúvida e não da certeza, como em geral os filósofos anteriores e a maioria das pessoas faziam. Sua dúvida era tida por metódica, pois punha em questão todas as supostas certezas, tanto do conhecimento sensível, quanto do intelectual, sendo ponto de partida para o método cartesiano de investigação científica.

Descartes e Cristina

René Descartes na corte de Rainha Cristina da Suécia

Famoso em toda Europa, recebido na corte da rainha Cristina (1626-1689), da Suécia, Descartes acreditava que um raciocínio bem conduzido bastava para chegar ao conhecimento perfeito. Ao duvidar de tudo, ele verifica que duvidando pensa e que pensando existe. A própria certeza sobre a existência depende do pensamento. Sua filosofia torna-se, então, racionalista.

O processo de raciocínio empregado por Descartes era basicamente a dedução. Isto é, consistia em partir de conceitos gerais até chegar às noções particulares, usando o princípio racionalista e o método lógico dedutivo do qual quatro princípios seriam suficientes: jamais aceitar como verdadeira coisa alguma que não se conhecesse como evidente, acima de qualquer dúvida; dividir cada dificuldade a ser examinada em tantas partes quanto possível e necessário, a fim de resolvê-las isoladamente; ordenar os pensamentos começando pelos assuntos mais simples até o conhecimento dos mais complexos, na hierarquia em que se seguem; e por último, fazer enumerações tão exatas quanto possível e revê-las para certificar a conclusão total do problema (1).

As Meditações Cartesianas

São seis as famosas Meditações (1641) elaboradas por Descartes. Sua motivação principal era tentar responder as duas questões fundamentais que não permitiam ao senso comum e a filosofia dobrarem os céticos: provar a existência de Deus e a imortalidade da alma. Para resolver essas dificuldades, o método cartesiano, desenvolvido para ser aplicado às ciências naturais, também
poderia ser usado na investigação desses assuntos. Na demonstração adotada, ultrapassa-se a certeza e evidência da Geometria e liberta-se dos preconceitos provocados pelos sentidos, dando provas da existência de Deus e da diferença entre corpo e alma, de modo exato e indubitável.

Na primeira meditação, a dúvida geral liberta o pensamento dos pré-julgamentos do senso comum e prepara o caminho para o espírito desligar-se dos sentidos, impedindo que haja qualquer dúvida após o estabelecimento da verdade. Na segunda, o espírito descobre que não pode duvidar de si mesmo, por mais radical que seja a dúvida. Aqui, são expostos os conceitos dos quais se tirarão as conclusões que serão verificadas até a quarta meditação. Enquanto isso, cumpre distinguir parte da natureza corpórea; constatar que o espírito é diferente do corpo e que a alma é indivisível. Tais pressuposições, entretanto, dependem de um explicação física que Descartes realizou em outra obra: “Traité du Monde et de la Lumiére” (Tratado do Mundo e da Luz), que só foi publicado depois de sua morte, por medo de uma condenação, como a sofrida por Galileu Galilei (1564-1691). A natureza substancial, no entanto, depende de um Deus que garanta sua existência e permanência. O corpo é composto por acidentes, mas a alma, ao contrário, é pura substância, não sendo afetada pelos desejos(2).

Na terceira meditação, Deus é apontado como o autor da ideia de causa perfeita existente em nós, sendo a causa da própria ideia de Deus. A quarta meditação põe claramente que as coisas concebidas pelo método são verdadeiras e explica de onde vem a razão do erro ou falsidade: a fraqueza da constituição finita do homem e o desconhecimento de uma verdade clara e distinta. Na quinta, novas razões são fornecidas para existência de Deus, enquanto se explica a natureza corpórea, provando também que a geometria depende do conhecimento de Deus. Por fim, a sexta meditação distingue a ação do entendimento da ação da imaginação, além de dar-se as provas definitivas da existência das coisas materiais, que não são tão fortes quanto o conhecimento de Deus e da nossa alma.

As Três Primeiras Meditações

O exame das opiniões do senso comum mostra que, quando se tem a condição de reconhecer a falsidade daquilo que se tinha por verdadeiro, é que se deve implantar a incerteza e a dúvida. Para derrubar uma opinião equivocada, deve-se atacar o fundamento do que não é de todo certo, destruindo pela base os erros daí derivados. Com isso, Descartes pretendia que se questionasse tudo que, ao menos uma vez, tenha causado enganos.

De início, pode-se duvidar dos conhecimentos vindos dos sentidos, que frequentemente são enganadores. Porém, nem todos erros provêm dos sentidos, além destes, podemos nos equivocar das coisas pouco sensíveis ou distantes, sendo fonte de erro também a loucura e o sonho que se confunde com o estado de vigília. Esse tipo de dúvida não pode, todavia, atingir a figura do objeto, sua quantidade, o espaço e o tempo ocupados. Sob esse aspecto, os sentidos não podem errar. Não podemos duvidar dos sonhos e da imaginação como duvidamos dos sentidos. Além disso, a verdade de ciências, tais como a geometria, só é posta em xeque na suposição da existência de um deus enganador (ou gênio maligno), que faria o sujeito acreditar em tais proposições como se fossem verdadeiras.

Então, é preciso suspender o juízo de tudo que tinha por certo e adotar o ceticismo para combater o hábito de julgar as coisas antecipadamente, sem razões bem fundadas. A possibilidade de um gênio maligno – no lugar de um Deus bom - obriga a tomar-se como duvidoso todo tipo de juízo. Mas para não ser enganado novamente, se deve estar atento à dúvida radical que evita o retorno ao juízos equivocados. Tais são as meditações metafísicas iniciais feitas por Descartes, sobre as coisas que se podem por em dúvida. Na segunda meditação, logo de início, procura-se algo que seja certo e firme, como um ponto de apoio arquimediano, aonde se funde com firmeza a verdade. Por causa da dúvida radical, nada resta senão ficção. O fato de se imaginar um gênio maligno, capaz de me iludir o tempo todo, leva, no entanto, a uma certeza: que o eu exista, sem dúvida, sempre que o eu pronuncie a expressão “eu sou, eu existo” (3). O próprio gênio maligno é a garantia momentânea de que algo exista para ser enganado: o próprio eu, embora, não conheça exatamente qual “eu” seja.

O conteúdo dessa novo pensamento, não pode ser expresso por intermédio de concepções que não separem o espírito do corpo. Todo conteúdo concreto de um eu só levaria a indagações intermináveis sobre sua condição última, por causa da impossibilidade imediata de atribuir uma natureza corporal ao eu. O pensamento é o único atributo da alma que não pode ser separado de mim. Isso estabelece a existência de um ser pensante, ou seja, um espírito, um entendimento ou razão que até agora era desconhecido. Pois, a natureza do eu exige que seja concebido a partir do que foi aceito como certo: o puro pensar. O eu está, dessa forma, separando corpo e outras faculdades que não o pensamento.

Além do mais, sou o mesmo que sente e imagina tudo que os sentidos e a imaginação dizem que sinto ou imagino, logo, Descartes pôde dizer que tudo isso nada seria se não fosse pensado. Portanto, já sei que existe um ser pensante, que também pensa e imagina. Apesar dessas certezas, nada impede que ainda se reflita sobre as coisas corpóreas como de melhor entendimento que as da minha própria natureza pensante. Essa dúvida sobre a concepção do eu considera os objetos externos mais fáceis de serem compreendidos. Contra isso, o exame detalhado do objeto físico mostra que todas as características do objetos não são dadas pelos sentidos, nem pela imaginação. Uma contra-prova empírica, dada pelo exemplo da cera – objeto que muda suas características segundo a temperatura -, revela que o que permanece do objeto é sua ideia e não sua imagem.

Só o espírito é capaz de conhecer o imutável nos corpos mutáveis. Portanto, o conhecimento de algo que existe depende de um eu pensante: o conhecimento do espírito não  depende do corpo, enquanto o conhecimento do corpo depende do espírito. Logo, Descartes termina a segunda meditação concluindo que, ao contrário do que pensa o senso comum, é mais fácil conhecer o espírito do que o corpo.

Do pouco que sabe de si mesmo, Descartes sabe que é uma coisa que pensa, duvida, afirma, nega, ama, odeia, deseja, imagina e sente verdadeiramente. A partir disso, na terceira meditação, ele pretende estabelecer uma regra geral para se conhecer outras coisas. Das que existem fora do corpo, o engano surgia quando se pensava que elas podiam ser conhecidas por si mesma, sem um eu. A única coisa da qual nada poderia iludir é que não exista um eu quando este pensa que existe, com ou sem gênio maligno. Para saber mais alguma outra, tem-se de saber primeiro se há um Deus e se ele pode ou não enganar acerca da existência dos objetos.De imediato, sabe-se que as ideias são pensamentos que formam imagens de coisas, enquanto a ação de  sujeitá-las ao espírito ora é vontade, afecção ou juízos. As ideias não são falsas quando são ideias, assim como as afecções ou as vontades. Mas os juízos erram ao relacionar as ideias com algo exterior. Algumas ideias são inatas, outras geradas pela mente e ainda por objetos de fora, por isso é preciso buscar a origem delas. Possivelmente, elas sejam uma inclinação natural para imprimir algo no espírito. Todavia essa inclinação natural não permite distinguir o verdadeiro do falso, como só uma luz natural poderia fazer. As ideias não podem vir de algo fora da  mente, pois assim, elas dependeriam de outra coisa que não  permitiria o conhecimento total do objeto, já que só o pensamento interno é possível de ser conhecido.

Certas ideias, entretanto, possuem maior perfeição do que aquelas que representam características ou acidentes. Tal grau de perfeição, numa criatura imperfeita, leva à concepção de Deus soberano, eterno, infinito, criador de tudo, que teria maior realidade objetiva – fora do sujeito – do que as coisas finitas. Uma realidade inferior deve derivar de uma superior, por um princípio de causalidade. A realidade da coisa atual depende de algo formal ou eminente que é sua causa. Mesmo a ideia de algo inferior, depende de outra superior, enquanto causa. As ideias que estão no sujeito, são imperfeitas, o sujeito sozinho não poderia fornecer a ideia cuja origem não pode ser reconhecida claramente nele mesmo. Se uma ideia desse tipo for encontrada, então se pode dizer que o sujeito não está sozinho no mundo.

Algumas ideias são derivadas do próprio eu ou da composição de figuras que aparecem ao sujeito e que poderiam ser materialmente falsas, isto é, não procederiam de nada existente. Porém, a ideia de um Deus não poderia ser criada, sem contradição, por algo finito, a não ser que este fosse de fato infinito. Logo, sua existência deve ser postulada, pois essa ideia teria de ser colocada no ser pensante por uma substância verdadeira e infinita. A realidade da substância infinita é comprovada pela própria imperfeição do ser pensante que duvida e, portanto, carece de perfeição. Destarte, a ideia clara e distinta de Deus é inabalável e certa, sem falsidade material, pois a ideia de Deus é verdadeira. O próprio ser pensante está contido nessa ideia, participando de alguma perfeição. Essa perfeição parcial permite o conhecimento do infinito por estar contido nele.

A luz natural revela que a ideia de Deus foi posta pelo próprio Deus no ser pensante. Se não houvesse Deus, o ser pensante não poderia ser o autor de si mesmo, pois, se assim fosse, seria o próprio Deus. Pois, seria absurdo que o ser pensante não se criasse completo e perfeito. A continuidade das coisas é garantida por Deus. A existência desta ideia independe do ser pensante. O corpo pode ter sua causa em outra causa material, mas o ser pensante só tem sua causa atribuída a Deus. O ser pensante adquiriu esta ideia no momento em que foi gerado e ela é a razão para um ser imperfeito supor a existência de outro perfeito. Por isso, Deus não erraria, dando a entender que ele, como o ser pensante, existam de fato. Eis, então, como, de um modo totalmente diferente dos procedimentos do senso comum, Descartes partindo da dúvida metódica chega à concepção de alma e de um Deus existente e perfeito.

A Sexta Meditação

Depois de duvidar de tudo que fosse enganoso, estabelecer a primeira certeza em uma coisa pensante e a existência de deus, as quarta e quinta meditações procuram resolver os problemas sobre verdade e falsidade das coisas e a essência ontológica de um ser perfeito divino garantidor de tudo que fosse verdadeiro. Para isentar deus de erro, a quarta meditação fixa a clareza e distinção como razões suficientes no sentido de separar as coisas verdadeiras das falsas, enquanto a quinta, através da constatação da natureza imutável e correta da matemática, tenta provar ontologicamente que um deus existe como principal fonte dessas certezas.

Uma vez constatada essas definições, na sexta meditação, Descartes trata de enfrentar o problema da realidade material. As coisas materiais, vistas sob a ótica da geometria, aparecem de forma clara e distinta. O que as tornam passíveis de existirem realmente. A clareza e distinção de uma ideia definem a possibilidade ou não de uma coisa. Quando tais requisitos não são satisfeitos, o juízo deve ser suspenso. Pela imaginação, é permitido afirmar a probabilidade da existência de algo [4].

A imaginação consegue manifestar a presença de objetos simples ao espírito, enquanto a pura intelecção possibilita conceber coisas mais complexas. Um pentágono, por exemplo, pode ser concebido e ter seus lados e área imaginados claramente. Já um quiliógono só é pensado conceitualmente. Assim, algo, além do espírito, pode ser presumido previamente, quando se une imaginação e intelecção, como faculdades mentais [5].

Uma segunda presunção decorre disso. A imaginação, para existir, depende de uma coisa fora do espírito. A pura intelecção, ao contrário, não depende de mais nada, pois é a essência do ser pensante. No campo das conjecturas, a imaginação permite sustentar a probabilidade de algum corpo existir [6].

Os sentidos, por sua vez, fornecem à imaginação os elementos externos à concepção para formação das coisas corpóreas. Uma investigação mais atenta cabe aqui para esclarecer como essa associação dos sentidos corporais com a mente é efetivada. Primeiro, a união entre corpo e mente gera as sensações de prazer e dor, conforme a comodidade dos apetites em relação aos outros corpos [7].

Essa relação faz crer na existência de outros corpos dos quais participam tais ideias. Estas sensações seriam mais nítidas do que qualquer simulação. As ideias sensíveis formadas pelo espírito não são tão expressivas quanto as dos sentidos. O que dava a impressão de que todas as ideias partiriam dos sentidos, como dirá John Locke (1632 – 1704), anos depois. O próprio corpo parece ser a única fonte dos sentimentos e apetites próprios do indivíduo [8].

A própria natureza ensina as relações aparentemente inexplicáveis entre corpos, prazeres e sensações. Toda formulação do juízo sobre isso, então, parece ser ensinada pela experiência natural. Contudo, como o raciocínio da primeira meditação advertira, não se pode confiar sempre nos dados dos sentidos, pois, as vezes, até mesmo pessoas amputadas sentem dores em suas partes mutiladas. Desde o início, se desconfiou dos estados de vigília que são passíveis de serem representados em sonho, bem como de tudo que, embora parecendo verdadeiro, possa ter sido engendrado de modo ilusório. Mesmo as coisas aprendidas sem intenção do agente podem ter sido originadas internamente pela ação de alguma faculdade ignorada [9].

Apesar dos sentidos estarem sob suspeita, nem tudo do que é ensinado pela percepção deve ser duvidoso. A distinção clara das coisas concebidas é executada por deus, por este saber que o sujeito é separado de todas as outras coisas que não o pensamento. Daí se conclui sua natureza de ser pensante, sem extensão. No entanto, por ser externo, o corpo de um sujeito deve existir distinto do seu pensamento. As faculdades da imaginação e do sentimento são dependentes da substância inteligível [10].

Outras categorias ou modos substanciais dependem de alguma extensão, mas não da inteligência. A existência de sentimentos revela uma faculdade passível que seria inútil se não houvesse uma outra ativa para formação e produção de ideias. Ao lado da alma, o corpo é a substância portadora dessa faculdade ativa e passível da sensibilidade. Deus não é enganador, mas não envia diretamente as ideias dos corpos materiais, que são apresentadas por meio das coisas corpóreas. Daí seu aspecto enganoso que, não obstante, é prova de sua existência [11].

Assim, do mesmo modo que existe essa faculdade capaz de equívoco, também existe outra apta a corrigi-la. Nos ensinamentos de uma natureza divina (criada por Deus), sempre há algo de verdadeiro, posto que a natureza em seu conjunto deve ser entendida como o próprio deus (um panteísmo cartesiano). Dentre as verdades aprendidas, está a união de um corpo ao ser pensante. O ser pensante de fato encontra-se misturado a seu corpo, formando um único todo. Os sentimentos confusos de dor e prazer decorrem dessa mistura entre corpo e espírito. Por conseguinte, além do próprio corpo, existiriam outros que geram as mais diversas percepções dos sentidos. De tal maneira, que há uma interação entre os outros corpos e o do sujeito. Nesta interação, muitas coisas ensinadas contêm falsidades. Por isso, deve ser definido com precisão o significado do que a natureza ensina. Todo o conhecimento verdadeiro da física depende de um exame cuidadoso que é um atributo exclusivo do espírito, o único capaz de conhecer a verdade. A natureza apenas informa os indícios sensíveis que precisam ser investigados [12].

Com frequência, essa ordem de razões é confundida e as meras informações biológicas são consideradas como regras certas. Os erros de juízo que persistem do ensinamento da natureza ocorrem por causa da incompletude do conhecimento do sujeito sobre todas as coisas. A natureza finita do ser humano não permite que se obtenha um conhecimento perfeito das coisas, apenas limitado. A natureza, entretanto, pode induzir qualquer um ao erro. O corpo humano é uma máquina montada por deus que a dotou de espírito, mas ainda que fosse desprovido de alma seu mero funcionamento mecânico não explicaria suas falhas. É preciso saber porque deus, sendo bom, não impediu que a natureza humana fosse enganadora [13].

Na natureza, tudo é divisível, enquanto o espírito sempre permanece uno. As outras faculdades mentais não se encontram separadas da alma, que funciona por inteiro quando sente, pensa e imagina. Já as coisas materiais podem ser separadas facilmente no pensamento. Através da glândula pineal, por outro lado, o espírito receberia as impressões sensoriais, segundo se acreditava no tempo de Descartes. Sendo assim, todo sistema nervoso estaria encarregado de levar os sinais sensoriais de todas as partes do corpo para o centro nervoso localizado no cérebro. Devido a suas limitações, as ações otimizadas pela glândula pineal são geradas, conforme as melhores escolhas determinadas por deus para a sobrevivência do organismo. As dores mais nocivas e prejudiciais, por exemplo, são tratadas primeiro. De acordo com as instruções divinas, as organizações propostas para o indivíduo são as melhores possíveis para sua conservação. Não obstante, os mecanismos, como o da sede, que provocam o movimento do espírito, podem se enganar a respeito de suas necessidades, tendo sede quando está bem hidratado. Apesar da bondade divina, tais movimentos podem ser falsos [14].

Uma intervenção neste processo do sistema nervoso pode provocar equívocos, como no caso da sede desnecessária, já antecipado. A memória, aliada ao entendimento, ajuda a evitar tais erros. Destarte, a dúvida hiperbólica já pode ser afastada, por conta da razão reta. A clareza e distinção permitem ligar os eventos passados aos do presente vivido, se nada houver de impedimento, pois deus não é enganador. Sem um exame apurado, a vida humana está sujeita a falhas por conta de sua acrasia [15].

Em suas Meditações, Descartes procurou desenrolar na seguinte ordem, as doze razões fundamentais que levariam à prova da existência de deus e da separação da alma e do corpo:

  1. eu existo;
  2. ser pensante;
  3. a mente é mais fácil de se conhecer que o corpo;
  4. deus existe;
  5. deus é perfeito;
  6. constatação do falibilismo;
  7. há uma vontade livre;
  8. objetividade das ideias claras e distintas;
  9. prova ontológica de deus por exigência de suas propriedades essenciais;
  10. alma distinta do corpo;
  11. coisas corporais existem;
  12. união factual do corpo com a alma.

Sem embargo, o esforço racional e seu relativo sucesso em constituir uma filosofia moderna não impediram a crítica subsequente contra o dualismo entre mente e corpo e a sua insatisfatória prova ontológica de deus. Porém, todo um novo movimento iluminista foi fundado em toda Europa, por conta de um novo racionalismo estabelecido por Descartes.

Notas

1. Veja DESCARTES, R. Discurso sobre o Método, parte II, p. 37/8.

2. Veja DESCARTES, R. Meditações, Resumo, p. 79/80

3. DESCARTES, R. Op. Cit., Meditação segunda, § 7, p. 94.

4. Veja DESCARTES, R. Meditações, VI, §1.

5. Veja DESCARTES, R. Op. Cit, §§ 2 e 3.

6. Veja DESCARTES, R. Idem, § 4.

7. Veja DESCRATES, R. Ibidem, §§ 5 a 7.

8. Veja DESCARTES, R. Ibid., §§ 8 a 11.

9. Veja DESCARTES, R.Ibid., §§ 12 a 15.

10. Veja DESCARTES, R. Ibid., §§ 16 a 18.

11. Veja DESCARTES, R. Ibid., §§ 19 e 20.

12. Veja DESCARTES, R. Ibid., §§ 21 a 28.

13. Veja DESCARTES, R. Ibid., §§ 29 a 32.

14. Veja DESCARTES, R. Ibid., §§ 33 a 40.

15. Veja DESCARTES, R. Ibid., §§ 41 a 43.

Referências Bibliográficas

ASIMOV, I. Gênios da Humanidade. – Rio de Janeiro: Bloch, 1974.
DESCARTES, R. Discurso do Método; trad. J. Guinsburg e Bento Prado Jr. – São Paulo: Abril Cultural, 1983.
________, _. Meditações; trad. J. Guinsburg e Bento Prado Jr. – São Paulo: Abril Cultural, 1983.

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